Um estudo inédito revela o impacto fatal das ondas de calor no Brasil, que foram responsáveis por aproximadamente 120 mil mortes no país entre os anos 2000 e 2019. A pesquisa, conduzida por algumas das principais instituições científicas brasileiras, aponta que os idosos são as maiores vítimas, correspondendo a oito em cada dez óbitos relacionados ao calor extremo.
Os dados alarmantes são de uma colaboração entre a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). O levantamento analisou informações de 1.814 cidades, que concentram cerca de 80% da população brasileira.
Idosos representam 80% das vítimas
O grupo mais vulnerável ao calor intenso é, de longe, a população idosa. Segundo o estudo, 80% das 119.799 mortes atribuídas às ondas de calor ocorreram em pessoas com 60 anos ou mais. O forte impacto do calor em idosos está diretamente ligado a fatores fisiológicos e condições de saúde preexistentes.
Com o envelhecimento, o corpo perde parte de sua capacidade de regular a temperatura interna. Além disso, a desidratação ocorre mais rapidamente. A presença de comorbidades, como doenças cardiovasculares e respiratórias, agrava o quadro, aumentando a sobrecarga no organismo e a mortalidade por calor. O estresse gerado pelo calor excessivo pode agravar problemas cardiovasculares, elevando o risco de eventos agudos.
A pesquisa também identificou as regiões mais afetadas. O Sudeste lidera o número de mortes, seguido pelo Nordeste. Essas áreas combinam alta densidade populacional com períodos de calor intenso e persistente, criando um cenário de alto risco para a saúde.
O papel das mudanças climáticas
Os pesquisadores alertam que os resultados são um reflexo direto dos efeitos das mudanças climáticas no país. A tendência, segundo os cientistas, é que as ondas de calor se tornem cada vez mais frequentes, intensas e duradouras, o que deve aumentar ainda mais os riscos para a saúde da população.
A análise utilizou dados de temperatura do Inpe e informações de mortalidade do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde. Para cada cidade, os cientistas definiram o que seria uma onda de calor local, considerando as temperaturas que excediam o padrão histórico por pelo menos dois dias consecutivos.
Diante deste cenário, o estudo reforça a urgência de se criar políticas públicas de adaptação e prevenção. É fundamental desenvolver planos de contingência para proteger os grupos mais vulneráveis, como a população de idosos, e preparar o sistema de saúde para responder a um desafio que tende a crescer nas próximas décadas.