Uma pesquisa inédita identificou pela primeira vez a presença de uma superbactéria de prioridade crítica para a Organização Mundial da Saúde (OMS) em um alimento vendido no Brasil. O achado acende um alerta sobre a disseminação da superbactéria Brasil fora do ambiente hospitalar, representando um novo desafio para a saúde pública e a segurança alimentar. Trata-se da Acinetobacter baumannii, encontrada em uma amostra de hortaliça.
A descoberta foi feita por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e detalha um cenário preocupante. Até então, a Acinetobacter baumannii era conhecida por causar infecções graves principalmente em pacientes internados em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), mas sua presença em alimentos abre uma nova e perigosa rota de transmissão para a comunidade.
O que é a Acinetobacter baumannii?
A Acinetobacter baumannii é uma bactéria oportunista, capaz de sobreviver em diversas superfícies e ambientes. Em pessoas com o sistema imunológico fragilizado, ela pode causar infecções respiratórias graves como a pneumonia, infecções de corrente sanguínea e do trato urinário.
O grande perigo associado a ela é sua altíssima capacidade de desenvolver resistência a antibióticos. Muitas cepas são resistentes aos carbapenêmicos, um tipo de antibiótico de amplo espectro usado como último recurso no tratamento de infecções bacterianas complexas. Essa característica a classifica como uma superbactéria e um dos maiores desafios da medicina moderna.
A descoberta e o impacto na segurança alimentar
O estudo que identificou a bactéria em uma hortaliça comercializada em Santa Catarina é um marco para a vigilância sanitária no país. A pesquisa, cujos detalhes foram publicados em um estudo no periódico científico do NIH, analisou amostras de alimentos e confirmou a presença da A. baumannii com perfil de multirresistência.
Para os especialistas, a principal hipótese é que a contaminação do alimento tenha ocorrido através da irrigação com água contaminada por esgoto hospitalar ou dejetos de animais. Este cenário evidencia uma falha na barreira entre o ambiente clínico e a cadeia de produção de alimentos, um problema que exige vigilância constante sobre a segurança de produtos consumidos pela população.
A presença dessa superbactéria em um alimento de consumo cru, como uma hortaliça, aumenta o risco de colonização do intestino humano. Embora a colonização não signifique infecção imediata, ela transforma o indivíduo em um portador, que pode disseminar a bactéria e desenvolver uma infecção futura caso sua imunidade baixe.
Uma ameaça global segundo a OMS
A preocupação com a Acinetobacter baumannii não é apenas local. Em 2017, a OMS publicou uma lista de patógenos prioritários para os quais novos antibióticos são urgentemente necessários. A A. baumannii resistente a carbapenêmicos lidera a lista na categoria de prioridade crítica, ao lado de outras duas bactérias.
A inclusão no topo da lista da OMS de superbactérias se deve à alta taxa de mortalidade das infecções que ela causa e à sua capacidade de compartilhar genes de resistência com outras bactérias. A disseminação de superbactérias representa uma das maiores ameaças à saúde pública global, podendo tornar procedimentos médicos comuns, como cirurgias e quimioterapia, extremamente arriscados.
A detecção no Brasil, em um alimento, reforça a necessidade de uma abordagem de “Saúde Única”, que integra a saúde humana, animal e ambiental. A vigilância precisa se estender para além dos hospitais, monitorando a água, o solo e a produção agrícola para conter a disseminação da resistência a antibióticos, exigindo uma resposta coordenada, similar à vigilância para outras doenças de alto risco como o Ebola.
Este achado serve como um chamado urgente para autoridades sanitárias, produtores e consumidores. Medidas de higiene no manuseio de alimentos, como a lavagem correta de vegetais, e políticas públicas robustas de saneamento e controle de infecções são fundamentais para mitigar os riscos dessa nova via de transmissão da superbactéria no Brasil.