A vitamina K2, parte da família da vitamina K, tem ganhado destaque crescente na ciência da nutrição por seus papéis distintos e vitais na saúde humana, que vão além da coagulação sanguínea, a função mais conhecida da vitamina K1. A vitamina K2, ou menaquinona, é um grupo de compostos lipossolúveis essenciais para a regulação do metabolismo do cálcio no corpo. Sua principal função é ativar proteínas que ajudam a depositar o cálcio onde ele é necessário, como nos ossos e dentes, e a removê-lo de locais onde pode causar danos, como nas artérias e outros tecidos moles. Essa ação dupla sugere que a vitamina K2 pode ser um nutriente chave para a manutenção da saúde óssea e cardiovascular a longo prazo. Enquanto a vitamina K1 (filoquinona) é encontrada abundantemente em vegetais de folhas verdes, a vitamina K2 é mais rara na dieta ocidental, sendo produzida por bactérias e encontrada em alimentos fermentados (como o natto, um prato japonês de soja fermentada) e em produtos de origem animal, como queijos curados, gema de ovo e fígado de animais alimentados com pasto.

O que é a vitamina K2

A vitamina K não é uma única vitamina, mas uma família. As duas formas principais são:

  • Vitamina K1 (Filoquinona): É a forma mais comum na dieta, encontrada em plantas. Seu papel principal é ativar as proteínas de coagulação no fígado.
  • Vitamina K2 (Menaquinona): É um termo para uma série de compostos com cadeias laterais de diferentes comprimentos, designadas como MK-n (onde ‘n’ é o número de unidades de isoprenoides na cadeia). As formas mais importantes e estudadas são a MK-4 e a MK-7.

Formas de vitamina K2

Os suplementos de vitamina K2 geralmente contêm uma ou ambas as seguintes formas:

  • Menaquinona-4 (MK-4): Possui uma cadeia lateral curta e uma meia-vida curta no corpo (algumas horas). Isso significa que, para manter níveis estáveis no sangue, ela precisaria ser tomada várias vezes ao dia. A MK-4 é a forma de K2 que o corpo pode sintetizar a partir da vitamina K1, embora essa conversão seja muitas vezes ineficiente. É encontrada em produtos de origem animal.
  • Menaquinona-7 (MK-7): Possui uma cadeia lateral longa e uma meia-vida muito mais longa (vários dias). Isso permite que ela se acumule e mantenha níveis sanguíneos mais estáveis com uma única dose diária. A MK-7 é produzida por bactérias e é a forma predominante no natto. A maioria dos suplementos modernos de K2 utiliza a MK-7 por sua biodisponibilidade e conveniência superiores.

Benefícios baseados em evidência

A pesquisa sobre a vitamina K2 tem se concentrado em seu papel na regulação do cálcio e seus impactos na saúde óssea e cardiovascular.

Saúde óssea e prevenção da osteoporose

A vitamina K2 é essencial para ativar a osteocalcina, uma proteína produzida pelos osteoblastos (células que constroem os ossos). Uma vez ativada, a osteocalcina se liga ao cálcio e o incorpora na matriz óssea, ajudando a construir ossos fortes e densos. Sem vitamina K2 suficiente, a osteocalcina permanece inativa e não consegue realizar sua função. Vários estudos, especialmente do Japão, onde o consumo de natto (rico em MK-7) é alto, associaram uma maior ingestão de vitamina K2 a uma menor incidência de fraturas ósseas. O Estudo de Rotterdam, um grande estudo populacional na Holanda, também observou que participantes com a maior ingestão de vitamina K2 tinham um risco significativamente menor de fraturas de quadril.

Saúde cardiovascular

O segundo papel crucial da vitamina K2 é a ativação da Proteína Gla da Matriz (MGP), uma das mais potentes inibidoras da calcificação de tecidos moles encontradas no corpo. A MGP ativada se liga ao cálcio na corrente sanguínea e impede que ele se deposite nas paredes das artérias. A calcificação arterial é um processo que endurece e estreita os vasos sanguíneos, sendo um fator de risco significativo para hipertensão, doença arterial coronariana e infarto. O já mencionado Estudo de Rotterdam mostrou que uma alta ingestão de vitamina K2 (mas não de K1) estava associada a uma redução drástica na calcificação da aorta e a um menor risco de mortalidade por doença cardíaca.

Como tomar a vitamina K2

A suplementação de K2 é frequentemente considerada por pessoas que buscam apoiar a saúde óssea e cardiovascular, especialmente aquelas que também suplementam com cálcio e vitamina D.

  • Dosagem: Não há uma Dose Diária Recomendada (RDA) específica para a vitamina K2, apenas para a vitamina K total (90-120 mcg/dia). Doses de suplementação de K2 geralmente variam de 45 mcg a 180 mcg por dia, principalmente na forma de MK-7.
  • Timing: Como uma vitamina lipossolúvel, a K2 deve ser tomada com uma refeição que contenha alguma gordura para maximizar a absorção.
  • Combinação com Vitamina D: A vitamina D aumenta a absorção de cálcio no intestino e promove a produção de proteínas dependentes da vitamina K, como a osteocalcina. A vitamina K2 então ativa essas proteínas. Por isso, muitos especialistas acreditam que a suplementação de vitamina D e cálcio deve ser acompanhada de vitamina K2 para garantir que o cálcio seja direcionado para os ossos e não para as artérias.

Quem deve evitar ou ter cuidado

A principal e mais importante contraindicação para a suplementação de vitamina K (tanto K1 quanto K2) é o uso de medicamentos anticoagulantes.

  • Pacientes em uso de anticoagulantes cumarínicos (Varfarina/Marevan): Esses medicamentos funcionam inibindo a reciclagem da vitamina K no corpo, o que impede a coagulação do sangue. Tomar suplementos de vitamina K pode anular o efeito do medicamento, aumentando o risco de trombose. Qualquer pessoa que use varfarina deve evitar suplementos de vitamina K e manter uma ingestão dietética consistente, sempre sob estrita supervisão médica.

Para a população geral, a vitamina K2 é considerada muito segura, sem Nível de Ingestão Máximo Tolerável (UL) estabelecido.

Efeitos colaterais

A vitamina K2 não tem efeitos colaterais conhecidos em doses comumente encontradas em suplementos. Mesmo em estudos com doses muito altas, não foram relatados efeitos tóxicos. Isso se aplica a pessoas que não estão tomando medicamentos anticoagulantes.

Interações com medicamentos

  • Anticoagulantes (Varfarina): Interação grave. A suplementação de vitamina K pode reduzir a eficácia da varfarina e aumentar o risco de coágulos sanguíneos.
  • Sequestrantes de ácidos biliares (Colestiramina): Usados para baixar o colesterol, podem reduzir a absorção de gorduras e, consequentemente, de vitaminas lipossolúveis como a K2.
  • Orlistat: Medicamento para perda de peso que também pode diminuir a absorção de vitamina K2.

O que diz a ciência

A evidência para o papel da vitamina K2 na saúde óssea e cardiovascular é promissora e crescente. Estudos observacionais, como o Estudo de Rotterdam, forneceram fortes correlações entre a ingestão de K2 e melhores resultados de saúde. Ensaios clínicos randomizados também apoiam esses achados. Um estudo de 3 anos publicado na revista Osteoporosis International com mulheres na pós-menopausa descobriu que a suplementação com 180 mcg/dia de MK-7 diminuiu significativamente a perda de densidade mineral óssea relacionada à idade. Outro estudo, publicado na Thrombosis and Haemostasis, mostrou que a mesma dose de MK-7 em mulheres saudáveis na pós-menopausa melhorou a elasticidade arterial e retardou a progressão da rigidez vascular. Embora a pesquisa seja animadora, mais estudos de longo prazo são necessários para estabelecer diretrizes definitivas de suplementação para a população em geral. No entanto, a ciência atual sugere fortemente que garantir uma ingestão adequada de vitamina K2 é um componente importante de uma estratégia abrangente para a saúde óssea e cardiovascular.