Metformina
A metformina é o principal medicamento oral para tratar diabetes tipo 2. Ela age reduzindo a produção de glicose pelo fígado e aumentando a sensibilidade do corpo à insulina. Não causa hipoglicemia quando usada sozinha.
A metformina é um dos medicamentos antidiabéticos orais mais prescritos e estudados em todo o mundo. Considerada a terapia de primeira linha para a maioria dos pacientes com diabetes tipo 2, ela tem uma história de uso de mais de 60 anos, com um perfil de segurança e eficácia bem estabelecido. Além de seu papel no controle da glicemia, a metformina tem sido investigada por seus potenciais benefícios em outras condições, como a síndrome dos ovários policísticos (SOP) e até mesmo na prevenção de certos tipos de câncer e no envelhecimento saudável, embora essas indicações ainda sejam objeto de estudo.
O que é a metformina
A metformina pertence a uma classe de medicamentos chamada biguanidas. Diferente de outros antidiabéticos, como as sulfonilureias, ela não estimula o pâncreas a produzir mais insulina. Em vez disso, seu principal efeito é aumentar a sensibilidade do corpo à insulina que já é produzida. Isso significa que ela ajuda as células do corpo, especialmente as do fígado e dos músculos, a utilizarem a glicose (açúcar) de forma mais eficiente. Uma de suas grandes vantagens é que, quando usada sozinha, a metformina não causa hipoglicemia (queda perigosa do açúcar no sangue), o que a torna um medicamento muito seguro para iniciar o tratamento do diabetes tipo 2.
Para que serve
A principal e mais consolidada indicação da metformina é o tratamento do diabetes mellitus tipo 2. Ela é recomendada como o fármaco inicial logo após o diagnóstico, em conjunto com mudanças no estilo de vida, como dieta e exercícios físicos.
As indicações específicas incluem:
- Diabetes tipo 2: Pode ser usada como monoterapia (sozinha) ou em combinação com outros antidiabéticos orais (como sulfonilureias, inibidores de DPP-4, análogos de GLP-1) ou com insulina, para melhorar o controle glicêmico.
- Prevenção do diabetes tipo 2: Em pacientes com pré-diabetes (intolerância à glicose), especialmente aqueles com alto risco de progressão para diabetes (por exemplo, com índice de massa corporal elevado), a metformina pode ser usada para retardar ou prevenir o desenvolvimento da doença.
- Síndrome dos ovários policísticos (SOP): Embora seja um uso off-label (não consta na bula de todas as formulações), a metformina é frequentemente prescrita para mulheres com SOP. Ela ajuda a melhorar a resistência à insulina, que é uma característica central da síndrome, podendo auxiliar na regularização dos ciclos menstruais e na ovulação.
A metformina também é conhecida por ter um efeito neutro ou de leve perda de peso, o que é um benefício adicional para muitos pacientes com diabetes tipo 2, que frequentemente estão acima do peso.
Como funciona no organismo
O mecanismo de ação da metformina é multifacetado e ainda não está completamente elucidado em todos os seus detalhes, mas seus principais efeitos são bem conhecidos:
- Redução da produção de glicose pelo fígado: Este é considerado seu principal mecanismo de ação. A metformina inibe um processo chamado gliconeogênese hepática, que é a produção de glicose pelo fígado a partir de outras substâncias. Em pessoas com diabetes tipo 2, esse processo está anormalmente aumentado, e a metformina ajuda a normalizá-lo, diminuindo a quantidade de açúcar que o fígado libera na corrente sanguínea, especialmente durante o jejum.
- Aumento da sensibilidade à insulina: A metformina melhora a captação e a utilização da glicose pelos tecidos periféricos, principalmente pelos músculos. Ela faz isso aumentando a atividade dos transportadores de glicose (como o GLUT4) na superfície das células, permitindo que mais açúcar entre nas células para ser usado como energia.
- Redução da absorção de glicose no intestino: A metformina também tem um efeito menor de retardar a absorção de carboidratos no trato gastrointestinal, o que ajuda a suavizar os picos de glicose no sangue após as refeições.
Esses efeitos combinados resultam em uma redução dos níveis de glicose no sangue (tanto em jejum quanto após as refeições) e da hemoglobina glicada (HbA1c), um marcador do controle glicêmico a longo prazo.
Como tomar o medicamento
A metformina está disponível em duas formulações principais: de liberação imediata (IR) e de liberação prolongada (XR ou SR). A forma de liberação imediata geralmente é tomada duas a três vezes ao dia, enquanto a de liberação prolongada é tomada apenas uma vez ao dia.
Para minimizar os efeitos colaterais gastrointestinais, que são comuns no início do tratamento, a metformina deve ser sempre tomada durante ou logo após as refeições. O tratamento geralmente começa com uma dose baixa (por exemplo, 500 mg uma ou duas vezes ao dia), que é aumentada gradualmente ao longo de semanas, conforme a tolerância do paciente e a necessidade de controle glicêmico, até atingir a dose alvo recomendada pelo médico. A dose máxima usual é de 2.550 mg/dia para a formulação de liberação imediata e 2.000 mg/dia para a de liberação prolongada.
É crucial seguir a prescrição médica e não alterar a dose ou interromper o uso por conta própria.
Possíveis efeitos colaterais
Embora seja um medicamento seguro, a metformina pode causar efeitos colaterais, principalmente no início do tratamento.
Efeitos muito comuns (podem ocorrer em mais de 10% dos pacientes)
- Distúrbios gastrointestinais: Náuseas, vômitos, diarreia, dor abdominal e perda de apetite são os efeitos mais frequentes. Geralmente são leves, transitórios e podem ser minimizados iniciando com doses baixas e tomando o medicamento com comida.
Efeitos comuns (podem ocorrer em até 10% dos pacientes)
- Alteração do paladar: Alguns pacientes relatam um gosto metálico na boca, que geralmente desaparece com o tempo.
Efeitos muito raros (podem ocorrer em menos de 0,01% dos pacientes)
- Acidose lática: É o efeito colateral mais grave, mas é extremamente raro. É uma emergência médica caracterizada pelo acúmulo de ácido lático no sangue. O risco é maior em pacientes com insuficiência renal grave, insuficiência hepática, alcoolismo ou em estados de hipóxia (falta de oxigênio).
- Deficiência de vitamina B12: O uso prolongado de metformina pode diminuir a absorção de vitamina B12, podendo levar à anemia ou a sintomas neurológicos. Recomenda-se o monitoramento periódico dos níveis de B12 em usuários de longa data.
- Reações cutâneas como vermelhidão, coceira e urticária.
Quem não deve usar (contraindicações)
A metformina é contraindicada para pacientes com:
- Hipersensibilidade (alergia) à metformina ou a qualquer outro componente da fórmula.
- Insuficiência renal grave (taxa de filtração glomerular < 30 mL/min).
- Condições agudas que podem alterar a função renal, como desidratação, infecção grave ou choque.
- Doença aguda ou crônica que possa causar hipóxia tecidual, como insuficiência cardíaca ou respiratória instável, infarto recente do miocárdio.
- Insuficiência hepática, intoxicação alcoólica aguda, alcoolismo.
- Cetoacidose diabética ou pré-coma diabético.
A metformina deve ser temporariamente suspensa antes de procedimentos cirúrgicos e exames de imagem que utilizem contraste iodado intravenoso.
Interações com outros medicamentos
Alguns medicamentos podem afetar a forma como a metformina funciona ou aumentar o risco de efeitos colaterais, especialmente a acidose lática. Informe seu médico sobre todos os medicamentos que você usa.
- Contraste iodado: Usado em exames como tomografia computadorizada. A combinação pode levar à insuficiência renal aguda e aumentar o risco de acidose lática. A metformina deve ser suspensa antes do exame e reiniciada 48 horas depois, após reavaliação da função renal.
- Álcool: Aumenta o risco de acidose lática, especialmente em jejum ou com desnutrição.
- Medicamentos que afetam a função renal: AINEs (anti-inflamatórios não esteroides), inibidores da ECA e diuréticos podem aumentar o risco de problemas renais e, consequentemente, de acidose lática.
- Corticoides e outros agentes hiperglicemiantes: Podem reduzir o efeito da metformina, exigindo monitoramento mais frequente da glicemia.
O que fazer em caso de superdosagem
A ingestão de doses muito altas de metformina pode levar à acidose lática, uma emergência médica. Os sintomas incluem dor abdominal, vômitos, cãibras musculares, mal-estar geral com cansaço extremo e dificuldade para respirar. A hipoglicemia é rara com superdosagem de metformina isolada, mas pode ocorrer se outros medicamentos para diabetes forem tomados em conjunto.
Se houver suspeita de superdosagem e surgirem esses sintomas, procure atendimento médico de emergência imediatamente. O tratamento hospitalar, muitas vezes com hemodiálise, é necessário para remover o excesso de metformina e ácido lático do corpo.
Quando procurar um médico
Procure atendimento médico de emergência se você desenvolver sintomas de acidose lática, como:
- Náusea e vômito persistentes.
- Dor de estômago intensa.
- Fraqueza ou cansaço incomuns.
- Dores musculares inexplicadas.
- Dificuldade para respirar ou respiração rápida e superficial.
- Sensação de frio, tontura ou vertigem.
Além disso, é importante manter o acompanhamento regular com seu médico para monitorar o controle do diabetes, a função renal e os níveis de vitamina B12, e para ajustar o tratamento conforme necessário.
Apresentações
| Forma farmacêutica | Concentração | Via |
|---|---|---|
| Comprimido | 500 mg | Oral |
| Comprimido | 850 mg | Oral |
| Comprimido de liberação prolongada | 500 mg (XR) | Oral |
| Comprimido de liberação prolongada | 750 mg (XR) | Oral |
| Comprimido de liberação prolongada | 1000 mg (XR) | Oral |
Uso clínico
Indicações
Tratamento do diabetes mellitus tipo 2, como monoterapia ou em combinação com outros antidiabéticos orais ou insulina. Também usado na prevenção do diabetes em pacientes com pré-diabetes e na síndrome dos ovários policísticos (SOP).
Posologia
A dose é individualizada e deve ser prescrita por um médico. Geralmente inicia-se com doses baixas (500 mg ou 850 mg) uma ou duas vezes ao dia, durante ou após as refeições, com aumento gradual. A formulação XR é tomada uma vez ao dia. Siga sempre a orientação médica.
- Tempo até início do efeito
- O efeito na redução da glicemia começa em poucos dias, mas o efeito máximo pode levar até duas semanas.
- Duração do efeito
- Depende da formulação. A de liberação imediata age por algumas horas (requer múltiplas doses diárias), enquanto a de liberação prolongada (XR) age por 24 horas.
Contraindicações
Contraindicado em insuficiência renal grave (TFG < 30 mL/min), insuficiência hepática, cetoacidose diabética, alcoolismo, e condições que causam hipóxia tecidual (ex: insuficiência cardíaca instável). Deve ser suspenso antes de exames com contraste iodado.
Superdosagem
A superdosagem pode levar à acidose lática, uma emergência médica com sintomas como dor abdominal, vômitos e dificuldade para respirar. Procure atendimento de emergência imediatamente. A hipoglicemia não é comum, a menos que outros medicamentos para diabetes sejam usados em conjunto.
Mecanismo de ação
A metformina exerce seu efeito anti-hiperglicêmico principalmente através da redução da produção de glicose hepática (gliconeogênese). Ela também aumenta a sensibilidade à insulina nos tecidos periféricos, como músculos e tecido adiposo, melhorando a captação e utilização da glicose. Adicionalmente, retarda a absorção de glicose no trato gastrointestinal. Seu mecanismo molecular envolve a ativação da AMPK (proteína quinase ativada por AMP).
Efeitos colaterais
Comuns
-
Distúrbios gastrointestinais
Náuseas, vômitos, diarreia, dor abdominal e perda de apetite. Geralmente ocorrem no início do tratamento e são transitórios.
-
Disgeusia (alteração do paladar)
Gosto metálico na boca.
Raros / graves
-
Acidose lática
Complicação metabólica grave, mas rara. O risco aumenta com insuficiência renal, hepática e alcoolismo.
-
Deficiência de Vitamina B12
O uso prolongado pode diminuir a absorção de vitamina B12, requerendo monitoramento.
-
Hepatite
Casos isolados de alterações nos testes de função hepática ou hepatite, que se resolvem com a descontinuação do tratamento.
Interações medicamentosas
| Medicamento / classe | Severidade | Descrição |
|---|---|---|
| Contraste iodado | Grave | Aumenta o risco de insuficiência renal e acidose lática. A metformina deve ser suspensa antes do procedimento. |
| Álcool | Grave | Aumenta o risco de acidose lática, especialmente em consumo agudo ou excessivo. |
| AINEs (ex: ibuprofeno) | Moderada | Podem afetar a função renal, aumentando o risco de acúmulo de metformina. Requer monitoramento. |
Populações especiais
Gestação
B B — sem evidência de risco
Categoria de risco na gravidez: B. Estudos em animais não demonstraram risco fetal, mas não há estudos adequados em mulheres grávidas. A metformina atravessa a placenta. Atualmente, a insulina é o tratamento de escolha para diabetes na gestação, mas a metformina tem sido usada com segurança em muitos casos, como na síndrome dos ovários policísticos e no diabetes gestacional, sempre sob estrita supervisão médica.
Lactação
A metformina é excretada no leite materno em pequenas quantidades. Dados limitados sugerem que o risco para o lactente é baixo. A decisão de amamentar durante o uso de metformina deve ser discutida com o médico, pesando os benefícios da amamentação contra os potenciais riscos.
Uso pediátrico
A segurança e eficácia da metformina foram estabelecidas para o tratamento de diabetes tipo 2 em crianças e adolescentes a partir de 10 anos de idade.
Uso geriátrico
Pacientes idosos devem usar metformina com cautela, pois a função renal tende a diminuir com a idade. O monitoramento regular da função renal é essencial, e a dose deve ser ajustada conforme necessário. Doses iniciais e de manutenção devem ser conservadoras.
Insuficiência renal / hepática
Renal: O uso é contraindicado em insuficiência renal grave (TFG < 30 mL/min). A dose deve ser ajustada para insuficiência moderada (TFG 30-59 mL/min) e a função renal monitorada. Hepático: Contraindicado em insuficiência hepática.
Regulatório
- Fabricante
- Merck
- Registro Anvisa
1.0089.0165.003-1- Versão genérica
- ✓ Disponível no Brasil
- Bula oficial Anvisa
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Perguntas frequentes
Metformina emagrece?
A metformina não é um medicamento para emagrecer, mas pode causar uma perda de peso modesta ou ajudar a manter o peso estável, ao contrário de outros antidiabéticos que podem causar ganho de peso. Isso ocorre em parte pela redução do apetite e pelos efeitos gastrointestinais.
Por que a metformina causa diarreia?
Os efeitos gastrointestinais, como diarreia, são os mais comuns com a metformina. O mecanismo exato não é totalmente claro, mas parece envolver a alteração da absorção de glicose e sais biliares no intestino. Iniciar com doses baixas, tomar com comida e usar formulações de liberação prolongada (XR) pode ajudar a minimizar esse efeito.
Posso tomar metformina para pré-diabetes?
Sim, a metformina pode ser prescrita para pessoas com pré-diabetes, especialmente para aquelas com IMC elevado e alto risco de desenvolver diabetes tipo 2. O objetivo é prevenir ou retardar a progressão da doença, sempre em conjunto com mudanças no estilo de vida.
Preciso parar de tomar metformina antes de uma cirurgia?
Sim, geralmente se recomenda suspender a metformina no dia da cirurgia (se houver restrição de líquidos e alimentos) ou 48 horas antes, especialmente para cirurgias de grande porte. A medicação só deve ser reiniciada após a cirurgia, quando a função renal estiver estável e a alimentação normalizada, sempre sob orientação médica.
O uso de metformina pode causar deficiência de vitamina B12?
Sim, o uso prolongado de metformina pode interferir na absorção de vitamina B12 no intestino. Recomenda-se que pacientes em uso de longa data, especialmente aqueles com anemia ou neuropatia, monitorem seus níveis de B12 periodicamente. A suplementação pode ser necessária se for detectada deficiência.
Posso beber álcool tomando metformina?
O consumo de álcool deve ser feito com muita cautela. O consumo excessivo ou agudo de álcool enquanto se toma metformina aumenta significativamente o risco de acidose lática, uma complicação grave. É melhor evitar ou limitar muito o consumo de álcool.
Qual a diferença entre a metformina normal e a XR (liberação prolongada)?
A metformina de liberação imediata (normal) libera o medicamento rapidamente e precisa ser tomada mais de uma vez ao dia. A metformina XR (ou SR) libera o medicamento lentamente ao longo de várias horas, permitindo uma única dose diária e geralmente causando menos efeitos colaterais gastrointestinais.