A quetiapina é um medicamento classificado como antipsicótico atípico, ou de segunda geração, amplamente utilizado na psiquiatria para o manejo de transtornos mentais complexos. Seu principal objetivo é reequilibrar a comunicação entre os neurônios no cérebro, ajudando a aliviar sintomas psicóticos, de humor e de comportamento. Embora seja mais conhecida pelo nome comercial de referência Seroquel, está disponível em diversas versões genéricas e similares, o que a torna mais acessível. A prescrição e o acompanhamento médico são indispensáveis durante todo o tratamento, pois a dose e a forma de uso devem ser cuidadosamente ajustadas para cada indivíduo, visando maximizar os benefícios e minimizar os riscos de efeitos adversos.

O que é a quetiapina

A quetiapina, cujo nome técnico é hemifumarato de quetiapina, é uma substância farmacêutica que age no sistema nervoso central. Ela pertence a um grupo de fármacos chamados antipsicóticos atípicos. O termo ‘atípico’ é usado para diferenciá-la dos antipsicóticos mais antigos (típicos ou de primeira geração), pois a quetiapina tende a causar menos efeitos colaterais motores, como tremores e rigidez, que eram comuns com os medicamentos mais velhos. Sua função não é curar as doenças para as quais é indicada, mas sim controlar os sintomas de forma eficaz, permitindo que os pacientes tenham uma vida mais estável e funcional. É um medicamento de uso controlado, vendido apenas com receita médica especial, que fica retida na farmácia, refletindo a necessidade de um monitoramento profissional rigoroso.

Para que serve

A quetiapina é aprovada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para o tratamento de várias condições psiquiátricas. As principais indicações incluem:

  • Esquizofrenia: É usada tanto para tratar os episódios agudos da doença, ajudando a reduzir alucinações, delírios e pensamento desorganizado, quanto para a manutenção do tratamento, prevenindo novas crises.
  • Transtorno bipolar: A quetiapina é um dos medicamentos mais versáteis para o transtorno bipolar, sendo indicada para todas as fases da doença. Ela pode ser usada para tratar episódios de mania (humor eufórico e exaltado), episódios de depressão bipolar (fase de tristeza profunda e falta de energia) e como terapia de manutenção para prevenir a ocorrência de novos episódios de humor, tanto maníacos quanto depressivos.
  • Tratamento adjuvante da depressão maior: Em alguns casos de transtorno depressivo maior que não respondem adequadamente ao tratamento apenas com antidepressivos, a quetiapina em doses mais baixas pode ser adicionada ao esquema terapêutico para potencializar o efeito do antidepressivo e ajudar a melhorar os sintomas.

Qualquer outro uso da quetiapina é considerado ‘off-label’ (fora da bula) e deve ser feito com extrema cautela e sob a responsabilidade do médico que a prescreve, após uma avaliação cuidadosa dos riscos e benefícios para o paciente.

Como funciona no organismo

O mecanismo de ação da quetiapina é complexo e envolve a interação com múltiplos sistemas de neurotransmissores no cérebro. Neurotransmissores são substâncias químicas que os neurônios usam para se comunicar. Acredita-se que os sintomas de transtornos como esquizofrenia e bipolaridade estejam relacionados a um desequilíbrio nesses sistemas, principalmente os de dopamina e serotonina. A quetiapina atua bloqueando a ação desses neurotransmissores em receptores específicos. Sua principal ação é como antagonista (bloqueador) dos receptores de dopamina do tipo 2 (D2) e de serotonina do tipo 2A (5-HT2A). O bloqueio dos receptores D2 na via mesolímbica do cérebro está associado à redução dos sintomas ‘positivos’ da esquizofrenia, como alucinações e delírios. Ao mesmo tempo, sua dissociação rápida desses receptores e o bloqueio dos receptores 5-HT2A podem explicar o menor risco de efeitos colaterais motores. Além disso, a quetiapina e seu metabólito ativo, a norquetiapina, agem em muitos outros receptores, incluindo os de histamina (causando sonolência e sedação) e os adrenérgicos (podendo causar tontura e queda de pressão). A ação da norquetiapina como inibidora da recaptação de norepinefrina é o que provavelmente confere o efeito antidepressivo do medicamento.

Como tomar

A forma de tomar a quetiapina depende da condição a ser tratada, da formulação prescrita (liberação imediata ou prolongada) e da resposta individual do paciente. É fundamental seguir rigorosamente a orientação do seu médico e nunca alterar a dose por conta própria.

  • Formas de apresentação: A quetiapina está disponível como comprimidos de liberação imediata (que devem ser tomados duas ou três vezes ao dia) e comprimidos de liberação prolongada, conhecidos como XR ou PRO (que são tomados apenas uma vez ao dia, geralmente à noite).
  • Posologia: A dose inicial é geralmente baixa e aumentada gradualmente pelo médico ao longo de vários dias ou semanas para permitir que o corpo se adapte e para minimizar os efeitos colaterais. A dose final pode variar muito, de 50 mg por dia para adjuvância na depressão até 800 mg por dia para esquizofrenia ou mania bipolar.
  • Modo de uso: Os comprimidos devem ser engolidos inteiros, sem partir, mastigar ou esmagar, especialmente os de liberação prolongada, pois isso alteraria a forma como o medicamento é liberado no corpo. Podem ser tomados com ou sem alimentos, mas os de liberação prolongada têm uma recomendação específica na bula para serem tomados sem alimentos ou com uma refeição leve.

Atenção: A interrupção do tratamento nunca deve ser feita de forma abrupta, pois isso pode causar sintomas de retirada, como insônia, náuseas e vômitos. A redução da dose deve ser sempre gradual e supervisionada por um médico.

Efeitos colaterais e cuidados

Como todo medicamento, a quetiapina pode causar efeitos colaterais. Muitos são mais intensos no início do tratamento e diminuem com o tempo. Os mais comuns incluem:

  • Sonolência e sedação: É um dos efeitos mais frequentes, motivo pelo qual muitas vezes a dose principal é administrada à noite.
  • Tontura: Especialmente ao se levantar rapidamente (hipotensão postural), devido à ação nos receptores adrenérgicos.
  • Boca seca: Um efeito anticolinérgico comum.
  • Ganho de peso e alterações metabólicas: A quetiapina pode aumentar o apetite e levar ao ganho de peso. Também está associada a um risco aumentado de desenvolver diabetes e aumento dos níveis de colesterol e triglicerídeos. Por isso, o monitoramento regular do peso, glicemia e perfil lipídico é essencial.
  • Constipação: Dificuldade para evacuar.

Efeitos mais raros, mas graves, exigem atenção médica imediata:

  • Síndrome Neuroléptica Maligna (SNM): Uma reação rara, mas potencialmente fatal, com sintomas de febre alta, rigidez muscular intensa, confusão mental e instabilidade da pressão arterial.
  • Discinesia Tardia: Movimentos involuntários, geralmente da face e da língua, que podem se tornar permanentes mesmo após a suspensão do medicamento. O risco aumenta com o uso prolongado.
  • Problemas cardíacos: Pode causar alterações no eletrocardiograma (prolongamento do intervalo QT), aumentando o risco de arritmias.

Quem deve evitar

A quetiapina é contraindicada para pessoas com histórico de alergia (hipersensibilidade) à quetiapina ou a qualquer outro componente da fórmula. Além disso, deve ser usada com extrema cautela e sob rigorosa supervisão médica nas seguintes populações:

  • Idosos com demência: Estudos mostraram um risco aumentado de morte e de eventos cerebrovasculares (como AVC) quando antipsicóticos atípicos são usados para tratar psicose em idosos com demência.
  • Pacientes com doenças cardiovasculares: Pessoas com histórico de infarto, insuficiência cardíaca ou arritmias devem ser monitoradas de perto.
  • Pacientes com histórico de convulsões: A quetiapina pode reduzir o limiar convulsivo.
  • Pacientes com diabetes ou fatores de risco: Pelo risco de hiperglicemia.

Interações com outros medicamentos

A quetiapina pode interagir com muitos outros medicamentos, o que pode alterar sua eficácia ou aumentar o risco de efeitos colaterais. É crucial informar ao seu médico sobre todos os medicamentos, suplementos e chás que você utiliza. Algumas interações importantes são:

  • Depressores do Sistema Nervoso Central: O uso concomitante com álcool, benzodiazepínicos (calmantes), opioides ou outros sedativos pode potencializar perigosamente o efeito de sonolência e depressão respiratória.
  • Inibidores e Indutores do CYP3A4: A quetiapina é metabolizada no fígado por uma enzima chamada CYP3A4. Medicamentos que inibem essa enzima (como antifúngicos cetoconazol e itraconazol, alguns antibióticos e suco de toranja) podem aumentar muito os níveis de quetiapina no sangue, elevando o risco de toxicidade. Por outro lado, medicamentos que induzem essa enzima (como carbamazepina, fenitoína e rifampicina) podem diminuir os níveis de quetiapina, reduzindo sua eficácia.
  • Medicamentos que afetam o coração: O uso com outros fármacos que também prolongam o intervalo QT aumenta o risco de arritmias graves.

O que fazer em caso de superdose

Uma superdose de quetiapina pode ser perigosa e requer atendimento médico de emergência. Os sintomas de uma overdose podem incluir sonolência extrema, tontura severa, batimentos cardíacos rápidos ou irregulares, queda acentuada da pressão arterial, dificuldade para respirar e coma. Não tente tratar a situação em casa. Em caso de suspeita de superdose, procure imediatamente um pronto-socorro ou ligue para o SAMU (192) ou para o Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CEATOX), informando o nome do medicamento, a quantidade ingerida e os sintomas do paciente. Leve a embalagem ou a bula do medicamento, se possível.

Quando procurar um médico

É fundamental manter o acompanhamento regular com seu médico durante todo o tratamento com quetiapina. Além das consultas de rotina, você deve procurar ajuda médica imediatamente se apresentar algum dos seguintes sinais de alerta:

  • Pensamentos de suicídio ou de automutilação, especialmente no início do tratamento ou após uma mudança de dose.
  • Febre alta acompanhada de rigidez muscular, suor excessivo e confusão mental (sinais de SNM).
  • Movimentos involuntários e incontroláveis do rosto, língua, braços ou pernas (sinais de discinesia tardia).
  • Amarelamento da pele ou dos olhos (icterícia), que pode indicar problemas no fígado.
  • Sede excessiva, aumento da frequência urinária e fome exagerada, que podem ser sinais de diabetes.
  • Desmaios ou sensação de que vai desmaiar, especialmente ao ficar de pé.