Um estudo recente revela uma realidade preocupante sobre a febre oropouche no Brasil, indicando que a doença pode estar massivamente subnotificada e já ter afetado até 2% da população. A pesquisa, conduzida pelo Instituto Todos pela Saúde (ITpS), sugere que a semelhança dos sintomas com outras arboviroses, como dengue e chikungunya, mascara a verdadeira dimensão do problema no país.
A dimensão da subnotificação no país
A investigação, publicada na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, analisou um universo de 1,3 milhão de exames para dengue, zika e chikungunya realizados entre 2023 e 2024. Os pesquisadores retestaram uma amostra de 2.400 testes que deram negativo para essas doenças e encontraram o vírus Oropouche (OROV) em 55 deles, o que corresponde a uma taxa de 2,3%.
Segundo Ricardo Khouri, pesquisador do ITpS e um dos autores do estudo, ao projetar essa porcentagem para os 7,5 milhões de casos suspeitos de arboviroses no Brasil, o número de infecções por Oropouche poderia chegar a 170 mil. Esse dado contrasta drasticamente com os cerca de 5 mil casos notificados oficialmente pelo Ministério da Saúde, evidenciando uma “epidemia silenciosa”.
Sintomas que confundem e dificultam o controle
Um dos principais fatores para a subnotificação são os sintomas da febre Oropouche, que podem ser facilmente confundidos com os de outras doenças transmitidas por mosquitos. O quadro clínico geralmente inclui:
- Febre de início súbito
- Dor de cabeça intensa
- Dores musculares e nas articulações
- Calafrios
- Sensibilidade à luz
Essa semelhança clínica leva muitos profissionais de saúde a não solicitarem o teste específico para Oropouche, especialmente fora da região amazônica, onde a doença era historicamente mais comum. O diagnóstico diferencial correto é, portanto, um desafio central para o controle da doença.
A transmissão do vírus ocorre principalmente pela picada do mosquito Culicoides paraensis, conhecido popularmente como maruim ou borrachudo. No entanto, estudos também apontam o Culex quinquefasciatus, o pernilongo comum, como um potencial vetor, o que amplia o risco de disseminação em áreas urbanas.
O avanço da febre oropouche pelo território nacional
Originalmente concentrada na região amazônica, a febre Oropouche está em clara expansão geográfica. O levantamento do ITpS detectou a presença do vírus em amostras de pacientes de diversos estados, incluindo Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Santa Catarina, locais onde a circulação do OROV não era amplamente reconhecida.
Essa expansão representa um novo desafio para a vigilância de doenças infecciosas no Brasil e acende um alerta sobre a necessidade de ampliar a capacidade de diagnóstico em todo o território. A crescente circulação de um novo agente infeccioso desafia a capacidade de resposta do sistema de saúde a novas ameaças.
A expansão da febre Oropouche e sua alta taxa de subnotificação exigem uma ação rápida das autoridades de saúde. A recomendação dos especialistas é que o teste para Oropouche seja integrado ao painel de diagnóstico para pacientes com suspeita de arboviroses em todo o Brasil, e não apenas na Amazônia. A medida é essencial para entender a real magnitude da epidemia e direcionar as ações de prevenção e controle de forma eficaz.