O mastruz, cientificamente conhecido como Dysphania ambrosioides (e anteriormente como Chenopodium ambrosioides), é uma planta herbácea com um cheiro forte e característico, muitas vezes descrito como penetrante e resinoso. Nativo da América Central e do Sul, o mastruz se espalhou por várias partes do mundo e é amplamente conhecido na medicina popular brasileira, principalmente por sua suposta ação contra vermes intestinais. Também é chamado de erva-de-santa-maria, mentruz ou epazote, em espanhol.

Apesar de sua longa história de uso, o mastruz é uma das plantas medicinais que requer mais atenção e cautela. Sua eficácia como vermífugo está ligada a um composto chamado ascaridol, que é altamente tóxico em doses elevadas. O limite entre a dose terapêutica e a dose tóxica é muito estreito, o que torna seu uso caseiro extremamente arriscado, especialmente para populações vulneráveis como crianças, gestantes e idosos. Por essa razão, embora conste na lista da RENISUS, seu uso deve ser cercado de conhecimento e, idealmente, substituído por alternativas mais seguras prescritas por um médico.

Identificação botânica

Dysphania ambrosioides é uma planta anual ou perene de vida curta, que pode crescer até cerca de um metro de altura. Possui um caule ramificado, muitas vezes com tons avermelhados. Suas folhas são lanceoladas, de cor verde-escura, com bordas dentadas ou onduladas, e são a principal fonte do cheiro forte da planta. As flores são pequenas, esverdeadas e discretas, agrupadas em espigas densas ao longo dos ramos superiores.

A característica mais distintiva do mastruz é, sem dúvida, seu odor. Ao amassar uma folha entre os dedos, libera-se um aroma forte e inconfundível, que para muitos é desagradável. Esse cheiro é um indicador da presença de óleos essenciais, incluindo o perigoso ascaridol. A planta cresce facilmente em terrenos baldios, hortas e jardins, sendo muitas vezes considerada uma erva daninha. A identificação correta é importante para não confundir com outras plantas, embora seu cheiro seja um guia bastante confiável.

Composição química

O principal componente químico do mastruz, e o responsável tanto por sua ação medicinal quanto por sua toxicidade, é o ascaridol. O ascaridol é um monoterpenoide orgânico que pode compor de 40% a 70% do óleo essencial da planta, dependendo das condições de cultivo, clima e da parte da planta analisada. É uma substância com comprovada atividade anti-helmíntica (vermífuga), especialmente contra ascarídeos (lombrigas) e ancilóstomos.

No entanto, o ascaridol é neurotóxico e hepatotóxico. Ele age paralisando os vermes, permitindo que sejam expelidos do corpo, mas se absorvido em quantidade suficiente pelo organismo humano, pode causar sérios danos ao sistema nervoso central e ao fígado. Além do ascaridol, a planta contém outros compostos como limoneno e cânfora, que contribuem para o perfil aromático e terapêutico, mas é o ascaridol que define o perfil de risco e benefício do mastruz.

Indicações tradicionais

O uso tradicional do mastruz é quase inteiramente focado no tratamento de parasitoses intestinais. Popularmente, acredita-se que o chá das folhas ou as folhas frescas maceradas com leite ou outros alimentos podem eliminar vermes como a lombriga (Ascaris lumbricoides). A mistura com leite é uma prática comum, baseada na crença de que o leite “atrai” os vermes, enquanto o mastruz os mata, embora não haja base científica para essa interação.

Além de seu uso como vermífugo, a medicina popular também atribui ao mastruz propriedades para aliviar problemas digestivos, como gases e cólicas, e para tratar afecções respiratórias, como bronquite e asma, geralmente na forma de infusões ou xaropes. Externamente, as folhas amassadas são por vezes usadas como cataplasma para aliviar dores de contusões e como cicatrizante, devido a uma possível ação anti-inflamatória e antimicrobiana. Contudo, a indicação mais forte e perigosa continua sendo a de vermífugo.

O que diz a ciência

A ciência confirma a atividade anti-helmíntica do óleo essencial de mastruz e do ascaridol. Estudos in vitro (em laboratório) e in vivo (em animais) demonstraram que o ascaridol é eficaz em paralisar e matar diversos tipos de vermes intestinais. Uma pesquisa publicada no Journal of Ethnopharmacology, por exemplo, confirmou a eficácia do óleo essencial contra Ascaris suum, um parasita suíno semelhante ao que afeta humanos.

No entanto, a mesma ciência que comprova sua eficácia também emite um forte alerta sobre sua toxicidade. A literatura médica está repleta de relatos de caso de intoxicação por mastruz, especialmente em crianças. Os sintomas de envenenamento incluem náuseas, vômitos, dor abdominal intensa, dor de cabeça, tontura, e em casos graves, convulsões, parada respiratória, coma e morte. A toxicidade é dose-dependente e a margem de segurança é mínima. Por essa razão, a comunidade médica e científica desaconselha fortemente o uso caseiro do mastruz como vermífugo, defendendo o uso de medicamentos antiparasitários modernos, que são seguros e eficazes quando prescritos por um médico.

Como usar

AVISO IMPORTANTE: Devido ao alto risco de toxicidade, o uso interno do mastruz é fortemente desaconselhado. As informações a seguir são de caráter educativo sobre as práticas tradicionais e não constituem uma recomendação de uso.

Tradicionalmente, o mastruz é preparado de algumas formas para uso interno, todas elas arriscadas:

  • Macerado com leite: Cerca de 10 a 15 folhas frescas são amassadas (maceradas) e misturadas com um copo de leite. A mistura é coada e ingerida em jejum. Esta é a forma mais popular e perigosa.
  • Chá (infusão): Uma colher de chá de folhas frescas ou secas é adicionada a uma xícara de água fervente. A mistura é abafada por cerca de 5 minutos, coada e consumida. A concentração de ascaridol pode variar drasticamente.

Para uso externo, como em contusões, as folhas são amassadas até formar uma pasta e aplicadas sobre a área afetada, sem feridas abertas. Este uso é considerado menos arriscado, mas ainda pode causar irritação na pele em pessoas sensíveis.

Cuidados e contraindicações

O uso do mastruz é cercado de contraindicações e requer cuidados extremos. A regra principal é: na dúvida, não use.

  • Toxicidade: O ascaridol é tóxico para o fígado e o sistema nervoso. A dose tóxica é muito próxima da dose terapêutica. Sintomas de intoxicação incluem dor de cabeça, náusea, vômito, tontura, e podem evoluir para convulsões e coma. Ao primeiro sinal de intoxicação, procure atendimento médico de emergência imediatamente.
  • Contraindicações absolutas: O uso é totalmente contraindicado para gestantes (pode ser abortivo), lactantes (o ascaridol pode passar para o leite), crianças (são extremamente vulneráveis à neurotoxicidade), idosos e pessoas com doenças do fígado, rins ou sistema nervoso.
  • Interações: Não deve ser usado concomitantemente com outros medicamentos, especialmente aqueles que são metabolizados no fígado.
  • Alternativas seguras: Existem medicamentos vermífugos modernos, como albendazol e mebendazol, que são altamente eficazes, seguros e disponíveis no SUS. O tratamento de verminoses deve ser sempre orientado por um médico após diagnóstico correto.

Cultivo doméstico

O mastruz é extremamente fácil de cultivar, muitas vezes crescendo espontaneamente. Ele se adapta a vários tipos de solo e climas, preferindo locais ensolarados. As sementes germinam com facilidade. No entanto, dado o seu potencial tóxico, é preciso ter cuidado ao cultivá-lo em casa, especialmente se houver crianças ou animais de estimação que possam ingerir a planta acidentalmente. Se optar por cultivar para uso externo (cataplasmas), mantenha a planta em uma área controlada e bem identificada para evitar acidentes.