A sete-sangrias, de nome científico Cuphea carthagenensis, é uma pequena planta herbácea nativa das Américas, encontrada em abundância em todo o território brasileiro. Ela cresce espontaneamente em pastagens, terrenos baldios, beiras de estradas e jardins, sendo muitas vezes considerada uma erva daninha. No entanto, na medicina popular, essa planta modesta é altamente valorizada por suas propriedades terapêuticas, especialmente por sua ação sobre o sistema cardiovascular e renal.

O nome ‘sete-sangrias’ remete a antigas práticas médicas, como a sangria, e sugere um efeito ‘depurativo’ ou de ‘limpeza do sangue’. Tradicionalmente, a planta é utilizada como diurético, para baixar a pressão arterial e para tratar problemas de pele. Sua inclusão na Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS (RENISUS) destaca seu potencial e a necessidade de mais estudos para validar e compreender seus usos. Contudo, seu efeito sobre a pressão arterial exige que seu uso seja feito com grande cautela e, preferencialmente, com acompanhamento profissional.

Identificação botânica

A Cuphea carthagenensis é uma planta pequena, geralmente com 20 a 60 cm de altura. Possui um caule fino, ereto e ramificado, coberto por pelos pegajosos, o que lhe confere uma textura característica. As folhas são pequenas, opostas, de formato lanceolado a oval, e também são um pouco pegajosas ao toque. As flores são minúsculas, com pétalas de cor lilás, rosa ou roxa, e surgem nas axilas das folhas, ao longo dos ramos.

A planta floresce e frutifica durante quase todo o ano. Por ser muito comum e ter uma aparência um tanto genérica, pode ser confundida com outras ervas. A textura pegajosa do caule e das folhas é uma de suas principais características de identificação. Além de ‘sete-sangrias’, ela pode ser conhecida por outros nomes, como ‘guanxuma-vermelha’ ou ‘chiag-chiag’.

Composição química

As propriedades medicinais da sete-sangrias são atribuídas a uma combinação de compostos fitoquímicos. Os principais grupos de substâncias ativas identificados na planta são os flavonoides e os taninos. Entre os flavonoides, encontram-se a rutina e a quercetina, compostos conhecidos por suas ações antioxidante, anti-inflamatória e protetora dos vasos sanguíneos. Esses compostos podem contribuir para a saúde cardiovascular de maneira geral.

Os taninos conferem à planta uma propriedade adstringente, que pode ser útil em aplicações tópicas para problemas de pele. Acredita-se que a ação diurética e hipotensora esteja relacionada à ação sinérgica de vários componentes, incluindo flavonoides e possivelmente outros compostos ainda não totalmente elucidados, que podem influenciar os mecanismos renais de reabsorção de sódio e água e promover o relaxamento dos vasos sanguíneos.

Indicações tradicionais

O uso mais difundido da sete-sangrias na medicina popular é como diurético e hipotensor. Pessoas com pressão alta ou retenção de líquidos costumam tomar o chá da planta para aumentar o volume de urina e, consequentemente, ajudar a reduzir a pressão arterial e o inchaço. A fama de ‘limpar o sangue’ está diretamente ligada a essa ação diurética, que ajuda o corpo a eliminar toxinas e excesso de líquidos pela urina.

Outra indicação tradicional importante é para o tratamento de problemas de pele, como eczemas, dermatites e feridas. O chá é usado tanto para ingestão, acreditando-se no efeito depurativo de dentro para fora, quanto para aplicação tópica, lavando-se a área afetada com a infusão para aproveitar sua ação adstringente e anti-inflamatória. A planta também é popularmente usada para baixar a febre, combater a diarreia e aliviar os sintomas de reumatismo.

O que diz a ciência

As evidências científicas sobre a Cuphea carthagenensis ainda são limitadas em comparação com outras plantas mais estudadas, mas os resultados existentes são promissores e tendem a confirmar os usos tradicionais. Estudos pré-clínicos em animais de laboratório demonstraram que os extratos da planta possuem, de fato, atividade diurética e hipotensora.

Uma pesquisa que administrou o extrato de sete-sangrias a ratos observou um aumento significativo na produção de urina, semelhante ao de diuréticos convencionais como a hidroclorotiazida. Em outro estudo com ratos hipertensos, o tratamento com o extrato da planta levou a uma redução significativa da pressão arterial. Os mecanismos exatos ainda estão sendo investigados, mas podem envolver a inibição da enzima conversora de angiotensina (ECA), um alvo comum de muitos medicamentos anti-hipertensivos, e um efeito direto sobre os rins.

Apesar desses achados positivos, é crucial ressaltar que são necessários ensaios clínicos em humanos para confirmar a eficácia, estabelecer doses seguras e avaliar os riscos. O uso da sete-sangrias para tratar hipertensão sem acompanhamento médico é extremamente perigoso.

Como usar

A forma mais comum de utilizar a sete-sangrias é o chá, preparado com a planta inteira (folhas, caules e flores).

  • Chá (infusão): Adicionar 1 a 2 colheres de sopa da planta seca (ou um pequeno maço da planta fresca) em 1 litro de água fervente. Desligar o fogo, abafar por cerca de 10 minutos, coar e beber. A recomendação popular é tomar de 2 a 3 xícaras ao dia.
  • Uso tópico: O mesmo chá, após amornar, pode ser usado para lavar áreas da pele afetadas por eczemas ou dermatites, ou para fazer compressas.

AVISO IMPORTANTE: Se você tem pressão alta e usa medicamentos, não deve consumir o chá de sete-sangrias sem antes consultar seu médico. A combinação pode causar uma queda brusca e perigosa da pressão arterial.

Cuidados e contraindicações

O uso da sete-sangrias requer muita cautela, especialmente por causa de seus efeitos sobre a pressão arterial.

  • Hipertensão e uso de medicamentos: Pacientes hipertensos que já estão em tratamento com medicamentos anti-hipertensivos devem evitar o uso da planta ou usá-la apenas com autorização e monitoramento médico rigoroso. A interação pode potencializar o efeito dos remédios e causar hipotensão (pressão baixa), com sintomas como tontura, fraqueza, desmaios e, em casos graves, choque.
  • Pessoas com pressão baixa: Indivíduos que já têm tendência à pressão baixa (hipotensão) devem evitar o consumo da planta.
  • Gestantes e lactantes: O uso é contraindicado por falta de estudos de segurança.
  • Uso prolongado: O uso contínuo como diurético pode levar a um desequilíbrio de eletrólitos, como a perda excessiva de potássio, o que pode ser perigoso, especialmente para a saúde do coração. O uso deve ser preferencialmente intermitente.
  • Crianças: O uso em crianças não é recomendado sem orientação profissional.

Cultivo doméstico

A sete-sangrias é muito fácil de cultivar. Por ser uma planta rústica, ela se adapta a quase qualquer tipo de solo, desde que não seja excessivamente seco, e prefere locais com boa exposição solar ou meia-sombra. Ela se propaga facilmente por sementes, que se espalham naturalmente pela ação do vento e da água. É possível tê-la em vasos ou canteiros. Ao colher, pode-se cortar os ramos, pois a planta rebrota com facilidade. Ter a planta em casa permite o acesso a uma fonte fresca, mas seu uso deve sempre respeitar as precauções de segurança.