A carqueja, cujo nome científico é Baccharis trimera, é uma planta arbustiva nativa da América do Sul, muito comum em todo o Brasil. Conhecida popularmente por suas hastes trialadas (que parecem ter três asas) e ausência de folhas verdadeiras, ela é uma das plantas medicinais mais populares do país. Seu uso tradicional, passado de geração em geração, foca principalmente no tratamento de problemas digestivos e hepáticos.

Devido à sua importância e amplo uso popular, a carqueja foi incluída na Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao Sistema Único de Saúde (RENISUS), o que estimula pesquisas e o desenvolvimento de produtos à base da planta para distribuição no SUS. Seu sabor é caracteristicamente amargo, o que, na fitoterapia, já indica uma forte ação sobre o sistema digestório.

O que é a carqueja?

A Baccharis trimera pertence à família Asteraceae, a mesma da margarida e do girassol. É um subarbusto perene que pode atingir até 80 cm de altura. O que parecem ser folhas são, na verdade, cladódios, que são caules modificados, achatados e alados, que realizam a fotossíntese. São essas partes aéreas que são colhidas para uso medicinal, geralmente na forma de chás, tinturas ou extratos secos.

Existem várias espécies de Baccharis, e muitas são popularmente chamadas de ‘carqueja’. No entanto, a B. trimera é a mais estudada e reconhecida por suas propriedades medicinais. Seu uso está profundamente enraizado na cultura popular brasileira, sendo facilmente encontrada em feiras, mercados e farmácias de produtos naturais.

Para que serve e benefícios potenciais

A carqueja é tradicionalmente procurada para uma variedade de condições, muitas das quais estão sendo investigadas pela ciência moderna. Seus benefícios mais citados incluem:

Saúde digestiva

Este é o uso mais consagrado da carqueja. Seu sabor amargo estimula a produção de saliva, suco gástrico, bile e enzimas pancreáticas, o que melhora todo o processo digestivo. Ela pode auxiliar no alívio de sintomas como má digestão (dispepsia), gases (flatulência) e sensação de estômago pesado, especialmente após refeições gordurosas.

Proteção do fígado (hepatoproteção)

Estudos em animais sugerem que os flavonoides e outros compostos da carqueja têm um efeito protetor sobre as células do fígado. Ela pode ajudar a proteger o órgão contra danos causados por toxinas, álcool e medicamentos. Essa ação, combinada com a melhora na produção de bile (ação colerética e colagoga), faz dela uma aliada da saúde hepática.

Controle da glicemia

Pesquisas preliminares indicam que a carqueja pode ter um efeito hipoglicemiante, ajudando a reduzir os níveis de açúcar no sangue. Alguns estudos sugerem que ela pode melhorar a sensibilidade à insulina e diminuir a absorção de glicose no intestino. No entanto, pessoas com diabetes devem usá-la com cautela e monitoramento, e nunca como substituta da medicação prescrita.

Ação diurética e depurativa

A carqueja é conhecida por seu efeito diurético leve, que ajuda a aumentar a eliminação de líquidos e toxinas através da urina. Isso pode ser útil em casos de retenção de líquidos e para auxiliar na ‘limpeza’ do organismo.

Como funciona no organismo

A carqueja possui uma rica composição química, que inclui flavonoides (como quercetina, luteolina e apigenina), terpenos (como o carquejol) e óleos essenciais. Esses compostos atuam de forma sinérgica para produzir seus efeitos terapêuticos:

  • Estimulação digestiva: Os compostos amargos ativam receptores na língua e no trato gastrointestinal, desencadeando uma resposta reflexa que aumenta a secreção de fluidos digestivos.
  • Ação antioxidante e anti-inflamatória: Os flavonoides são potentes antioxidantes que combatem o estresse oxidativo e reduzem a inflamação, protegendo as células, especialmente as do fígado e do pâncreas.
  • Efeito hipoglicemiante: Acredita-se que a carqueja possa inibir enzimas como a alfa-glicosidase, que quebra carboidratos no intestino, retardando a absorção de glicose. Também pode proteger as células beta do pâncreas, responsáveis pela produção de insulina.
  • Ação colerética/colagoga: Estimula o fígado a produzir mais bile (colerético) e a vesícula biliar a liberá-la no intestino (colagogo), facilitando a digestão de gorduras.

Como tomar e dosagem

A forma mais comum de consumir carqueja é através do chá. É fundamental seguir as orientações de um profissional de saúde, mas as dosagens tradicionais são:

  • Chá por infusão: Adicionar 1 a 2 colheres de sopa (cerca de 2,5 g) das hastes secas em 1 xícara (200 ml) de água fervente. Abafar por 10 minutos, coar e tomar. A recomendação usual é de 2 a 3 xícaras por dia, preferencialmente antes das principais refeições.
  • Cápsulas: A dosagem varia conforme o extrato, mas geralmente fica em torno de 300 a 500 mg, 2 a 3 vezes ao dia.
  • Tintura: Cerca de 20 a 30 gotas diluídas em água, 2 a 3 vezes ao dia.

O uso não deve ser prolongado sem orientação médica. Ciclos de tratamento são geralmente recomendados.

Efeitos colaterais e cuidados

Quando consumida nas doses recomendadas, a carqueja é bem tolerada pela maioria das pessoas. O principal ‘efeito’ é seu sabor intensamente amargo, que pode ser desagradável para alguns. Em doses excessivas, pode causar:

  • Irritação gástrica
  • Diarreia
  • Hipoglicemia (queda de açúcar no sangue), especialmente em jejum ou em diabéticos.

Quem deve evitar (contraindicações)

O uso da carqueja é desaconselhado em algumas situações:

  • Gravidez e amamentação: A carqueja pode ter um efeito abortivo e não há dados sobre sua segurança na lactação. Portanto, é contraindicada.
  • Pessoas com hipoglicemia: Por seu potencial de reduzir o açúcar no sangue, deve ser evitada por quem já tem tendência a níveis baixos de glicose.
  • Pacientes com pressão baixa (hipotensão): Alguns estudos indicam que a carqueja pode baixar a pressão arterial.
  • Crianças: O uso não é recomendado para crianças sem orientação médica.

Interações com outros medicamentos

A carqueja pode interagir com certos medicamentos, potencializando ou alterando seus efeitos:

  • Antidiabéticos (hipoglicemiantes): Pode aumentar o risco de hipoglicemia. O uso concomitante exige monitoramento rigoroso da glicemia.
  • Anti-hipertensivos: Pode potencializar o efeito de medicamentos para pressão alta, levando à hipotensão.
  • Diuréticos: O uso conjunto pode aumentar o risco de desequilíbrio eletrolítico.

Sempre informe seu médico sobre o uso de carqueja se você estiver em tratamento com qualquer outro medicamento.

O que fazer em caso de superdose

A ingestão de uma quantidade muito grande de carqueja pode levar a uma queda acentuada da glicose e da pressão arterial. Os sintomas podem incluir tontura, fraqueza, suor frio, confusão mental e desmaio. Nesses casos, procure atendimento médico de emergência imediatamente.

Quando procurar um médico

Consulte um profissional de saúde antes de iniciar o uso da carqueja, especialmente se você se enquadra em algum dos grupos de risco. Procure um médico se, durante o uso, você apresentar sintomas de hipoglicemia persistente, queda de pressão, reações alérgicas ou se os seus sintomas digestivos não melhorarem ou piorarem após alguns dias de tratamento.