O Tribulus terrestris é uma pequena planta rasteira, coberta de espinhos, que cresce em diversas partes do mundo, incluindo Europa, Ásia, África e Oriente Médio. Há séculos, ela é utilizada na medicina tradicional chinesa e na Ayurveda (medicina indiana) como um tônico para a vitalidade, saúde sexual e bem-estar geral. Nos últimos anos, ganhou imensa popularidade no ocidente, principalmente no meio esportivo e entre homens que buscam melhorar a libido e o desempenho, sob a alegação de que aumentaria os níveis de testosterona.

No entanto, a ciência moderna apresenta um quadro mais complexo e controverso. Diferente de outros fitoterápicos consagrados, os benefícios do Tribulus terrestris são tema de intenso debate. Este verbete detalha o que se sabe sobre a planta, separando os usos tradicionais das evidências científicas, e aborda as importantes precauções de uso. É importante notar que, ao contrário de plantas como guaco ou espinheira-santa, o Tribulus terrestris não faz parte da lista de plantas de interesse do SUS (RENISUS).

O que é o Tribulus terrestris?

O Tribulus terrestris pertence à família Zygophyllaceae. A parte da planta utilizada para a produção de suplementos e fitoterápicos é geralmente o fruto ou a planta inteira. Sua composição química é rica em saponinas esteroidais, sendo a protodioscina a mais famosa e frequentemente citada como o principal composto ativo. Além dela, a planta contém flavonoides, alcaloides e outros fitoquímicos que podem contribuir para seus efeitos biológicos.

A alegação mais comum é que a protodioscina estimularia a produção do hormônio luteinizante (LH) no cérebro, que por sua vez sinalizaria aos testículos para produzirem mais testosterona. No entanto, como veremos, essa teoria não é consistentemente suportada por estudos em humanos.

Para que serve e o que diz a ciência?

As indicações do Tribulus terrestris são divididas entre o uso tradicional e as alegações modernas, que nem sempre são comprovadas cientificamente.

  • Aumento da libido e melhora da função sexual: Esta é a área com as evidências mais promissoras. Vários estudos clínicos, especialmente em homens e mulheres com baixa libido ou alguma disfunção sexual, sugerem que o Tribulus terrestris pode melhorar o desejo, a excitação, a satisfação e, em homens, a função erétil. O efeito parece ser mais pronunciado em pessoas com algum grau de disfunção do que em indivíduos saudáveis com libido normal.
  • Aumento de testosterona e desempenho atlético: Esta é a alegação mais controversa e, em grande parte, não comprovada. A maioria dos estudos clínicos bem conduzidos em homens jovens e saudáveis (incluindo atletas) não encontrou aumento significativo nos níveis de testosterona, força muscular ou massa magra com a suplementação de Tribulus. O efeito anabólico e de melhora de performance é considerado um mito pela comunidade científica.
  • Saúde cardiovascular e metabólica: Alguns estudos em animais e estudos preliminares em humanos sugerem que o Tribulus pode ter efeitos benéficos na redução dos níveis de glicose, colesterol e pressão arterial. No entanto, esses dados ainda são insuficientes para recomendar seu uso para esses fins.

Como funciona no organismo?

O mecanismo de ação exato do Tribulus terrestris ainda não é totalmente compreendido, e as teorias evoluíram à medida que a pesquisa avançou.

  • Efeito na libido: A teoria mais aceita para a melhora da função sexual não é o aumento da testosterona, mas sim uma ação no sistema nervoso central. Acredita-se que a protodioscina e outros compostos possam aumentar a conversão de testosterona em di-hidrotestosterona (DHT), um andrógeno mais potente, ou aumentar a sensibilidade dos receptores androgênicos no cérebro. Outra hipótese é um efeito sobre a via do óxido nítrico, que é crucial para a vasodilatação e a ereção peniana.
  • Falta de efeito na testosterona: Em homens saudáveis, o corpo possui um sistema de feedback negativo muito eficiente (eixo hipotálamo-hipófise-gônadas) que regula a produção de testosterona. Mesmo que o Tribulus cause um pequeno estímulo no LH, o corpo rapidamente compensa para manter os níveis hormonais dentro da faixa normal. É por isso que não se observa um aumento sustentado do hormônio.

Como tomar e posologia

O Tribulus terrestris é quase sempre consumido na forma de cápsulas de extrato seco. A qualidade e a eficácia do produto dependem crucialmente da concentração de saponinas, especialmente da protodioscina.

  • Dosagem: As doses utilizadas em estudos clínicos variam amplamente, de 250 mg a 1500 mg de extrato por dia, divididas em 2 ou 3 tomadas.
  • Concentração: É fundamental procurar por produtos que informem a concentração de saponinas (geralmente entre 40% e 95%). Produtos sem essa informação são de qualidade duvidosa.

O uso deve ser feito preferencialmente junto às refeições para minimizar o risco de desconforto gástrico. Como é um produto que pode ter efeitos hormonais, seu uso deve ser sempre orientado por um médico ou nutricionista.

Efeitos colaterais e cuidados

Embora geralmente considerado seguro para uso em curto prazo nas doses recomendadas, o Tribulus terrestris pode causar alguns efeitos colaterais:

  • Desconforto gastrointestinal, como dor de estômago, cãibras, náuseas e diarreia.
  • Agitação, dificuldade para dormir (insônia).
  • Em mulheres, pode haver alterações no ciclo menstrual.
  • Acne, devido a possíveis flutuações androgênicas.

Um risco importante é a qualidade dos suplementos disponíveis no mercado. Muitos produtos podem conter dosagens inferiores às do rótulo ou, pior, estar contaminados com outras substâncias.

Quem deve evitar (contraindicações)

O uso de Tribulus terrestris é contraindicado para:

  • Gestantes e lactantes: Absolutamente contraindicado devido aos seus potenciais efeitos hormonais.
  • Crianças e adolescentes: Não deve ser usado, pois pode interferir no desenvolvimento hormonal.
  • Pacientes com câncer de próstata ou de mama, ou com alto risco para essas doenças, pois são condições sensíveis a hormônios.
  • Homens com hiperplasia prostática benigna (HPB), pois teoricamente poderia agravar a condição.
  • Pessoas com doenças renais ou hepáticas graves.

Interações com outros medicamentos

O Tribulus terrestris pode interagir com certos medicamentos, exigindo cautela:

  • Medicamentos para diabetes (hipoglicemiantes): Pode potencializar o efeito desses medicamentos, aumentando o risco de hipoglicemia (queda excessiva de açúcar no sangue).
  • Medicamentos para pressão arterial (anti-hipertensivos): Pode aumentar o efeito, causando hipotensão.
  • Lítio: O Tribulus pode ter um efeito diurético, alterando a forma como o corpo elimina o lítio, o que pode levar a níveis perigosos do medicamento no sangue.

Quando procurar um médico

É fundamental procurar um médico antes de iniciar o uso de Tribulus terrestris, especialmente para avaliar a causa de sintomas como baixa libido ou disfunção erétil, que podem ser sinais de condições médicas subjacentes sérias (como diabetes, doenças cardíacas, depressão ou deficiência hormonal real). A automedicação para ‘aumentar a testosterona’ sem um diagnóstico de hipogonadismo é desaconselhada e potencialmente perigosa.