Ácido acetilsalicílico (AAS)
O ácido acetilsalicílico (AAS) é um AINE versátil para dor, febre e inflamação. Em baixas doses, atua como antiagregante plaquetário, essencial na prevenção de infarto e AVC. Requer cautela devido ao risco de sangramento.
O ácido acetilsalicílico, popularmente conhecido pela sigla AAS e pela marca de referência Aspirina, é um dos medicamentos mais antigos e versáteis da farmacologia moderna. Descoberto no final do século XIX, ele revolucionou o tratamento da dor, febre e inflamação. Com o tempo, uma nova e vital função foi descoberta: sua capacidade de ‘afinar o sangue’ (ação antiplaquetária), tornando-o uma pedra angular na prevenção de doenças cardiovasculares, como infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral (AVC). Apesar de sua ampla disponibilidade e múltiplos benefícios, o AAS não é isento de riscos, exigindo uso consciente e, em muitos casos, orientação médica, especialmente devido ao seu potencial de causar sangramentos e problemas gastrointestinais.
O que é o ácido acetilsalicílico
O AAS é o membro mais antigo da classe dos anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs). Ele é um salicilato, derivado do ácido salicílico, uma substância encontrada na casca do salgueiro e usada medicinalmente por séculos. O AAS atua de forma distinta dependendo da dose utilizada. Em doses mais altas (geralmente 325 mg a 650 mg ou mais), funciona como analgésico, antitérmico e anti-inflamatório. Em doses baixas (tipicamente 75 mg a 100 mg por dia), seu principal efeito é o antiplaquetário, que previne a agregação das plaquetas e a formação de coágulos sanguíneos.
Para que serve
As indicações do AAS são divididas com base na dose utilizada:
Doses analgésicas/anti-inflamatórias (altas):
- Alívio de dores de intensidade leve a moderada, como dor de cabeça, dor de dente, dores musculares e articulares.
- Redução da febre em adultos.
- Tratamento de condições inflamatórias, como artrite reumatoide (hoje menos comum para este fim, devido a AINEs mais modernos).
Doses antiplaquetárias (baixas):
- Prevenção secundária: Em pacientes que já tiveram um evento cardiovascular (infarto, AVC isquêmico, angina instável), o uso diário de AAS em baixa dose é fundamental para reduzir o risco de um novo evento.
- Prevenção primária: Em pessoas que nunca tiveram um evento, mas possuem alto risco cardiovascular (calculado pelo médico com base em fatores como idade, pressão, colesterol, diabetes), o AAS pode ser indicado para reduzir a chance de um primeiro infarto. A decisão de usar AAS para prevenção primária é complexa e deve ser individualizada pelo médico, pesando o benefício contra o risco de sangramento.
Como funciona no organismo
O AAS funciona através da inibição irreversível da enzima ciclo-oxigenase (COX). Ele bloqueia tanto a COX-1 quanto a COX-2. A inibição da COX-2 em locais de lesão reduz a produção de prostaglandinas, aliviando a dor, a febre e a inflamação. O efeito mais singular do AAS vem da sua inibição da COX-1 nas plaquetas. As plaquetas usam a COX-1 para produzir tromboxano A2, uma substância que as faz agregarem-se umas às outras para formar um coágulo. Ao bloquear a produção de tromboxano de forma irreversível, o AAS impede que as plaquetas se ‘juntem’. Como as plaquetas não têm núcleo e não podem produzir novas enzimas, o efeito dura por toda a vida da plaqueta (cerca de 7 a 10 dias). Isso explica por que uma pequena dose diária é tão eficaz para a prevenção de coágulos.
Como tomar
A forma de tomar AAS depende inteiramente da indicação. Nunca inicie o uso diário de AAS sem recomendação médica.
- Para dor e febre: A dose para adultos é geralmente de 500 mg a 1000 mg, a cada 4 a 8 horas, não excedendo 4 gramas por dia. Deve ser tomado por curto período.
- Para prevenção cardiovascular: A dose é tipicamente de 100 mg uma vez ao dia. Existem formulações com revestimento entérico (‘protegido’) que se dissolvem no intestino, e não no estômago, para tentar reduzir a irritação gástrica. Recomenda-se tomar com alimentos.
Atenção: O AAS é contraindicado para crianças e adolescentes com sintomas de febre ou infecções virais (gripe, catapora) devido ao risco da Síndrome de Reye, uma doença rara mas grave que afeta o cérebro e o fígado.
Efeitos colaterais e cuidados
Os principais riscos do AAS estão relacionados à sua ação no estômago e na coagulação:
- Irritação gastrointestinal: Pode causar dor de estômago, queimação e náuseas.
- Sangramento gastrointestinal: O risco mais sério. Pode levar a úlceras e sangramentos que podem ser graves. O risco é maior em idosos, pessoas com histórico de úlcera e usuários de álcool.
- Aumento do risco de sangramento: Por ‘afinar o sangue’, o AAS pode aumentar o tempo de sangramento de cortes e facilitar o aparecimento de hematomas. Também aumenta o risco de sangramentos mais graves, como o intracraniano (hemorragia cerebral).
- Reações alérgicas: Pessoas com asma e pólipos nasais podem ter reações graves (broncoespasmo).
Quem deve evitar
O AAS é contraindicado para:
- Pessoas com alergia ao AAS ou outros AINEs.
- Pacientes com úlcera gástrica ou duodenal ativa.
- Indivíduos com distúrbios de coagulação, como hemofilia.
- Crianças e adolescentes com febre ou infecções virais.
- Gestantes no último trimestre.
- Pacientes com insuficiência grave do fígado, rins ou coração.
Interações com outros medicamentos
O AAS interage com muitos medicamentos, sendo crucial a avaliação médica:
- Anticoagulantes (varfarina) e outros antiplaquetários (clopidogrel): Aumentam drasticamente o risco de sangramento.
- Outros AINEs (ibuprofeno, nimesulida): Aumentam o risco de lesão gastrointestinal. O ibuprofeno, em particular, pode interferir no efeito antiplaquetário do AAS.
- Metotrexato: O AAS pode aumentar a toxicidade do metotrexato.
- Alguns antidepressivos (ISRS): Podem aumentar o risco de sangramento.
O que fazer em caso de superdose
A superdosagem de AAS (salicilismo) é grave. Os sintomas iniciais podem incluir zumbido nos ouvidos (tinnitus), tontura, sudorese, náuseas e vômitos. Em doses mais altas, pode levar a febre, confusão mental, dificuldade para respirar, acidose metabólica e coma. É uma emergência médica que requer atendimento imediato. O tratamento hospitalar pode incluir lavagem gástrica, carvão ativado e medidas para corrigir o desequilíbrio ácido-básico do corpo.
Quando procurar um médico
Procure um médico antes de iniciar o uso contínuo de AAS. Durante o tratamento, procure ajuda médica se apresentar:
- Fezes pretas, escuras ou com sangue.
- Vômito com sangue ou com aspecto de ‘borra de café’.
- Dor de estômago severa ou persistente.
- Hematomas inexplicáveis ou sangramentos que não param.
- Zumbido nos ouvidos ou perda de audição.
- Sinais de reação alérgica, como dificuldade para respirar ou inchaço do rosto.
Apresentações
| Forma farmacêutica | Concentração | Via |
|---|---|---|
| Comprimido | 100 mg | Oral |
| Comprimido | 500 mg | Oral |
| Comprimido revestido | 100 mg | Oral |
Uso clínico
Indicações
Doses baixas (ex: 100 mg): Para a prevenção de eventos cardiovasculares como infarto do miocárdio e AVC isquêmico em pacientes de alto risco (prevenção primária) e em pacientes que já tiveram um evento (prevenção secundária).
Doses altas (ex: 500 mg): Para o alívio sintomático de dores de intensidade leve a moderada, como dor de cabeça, dor de dente, dor de garganta, dores musculares e cólicas menstruais, e para baixar a febre em adultos.
Posologia
A posologia depende da indicação e deve ser orientada por um médico.
Para dor e febre (adultos): 1 a 2 comprimidos de 500 mg, se necessário repetidos a cada 4 a 8 horas. Não exceder 8 comprimidos de 500 mg por dia.
Para prevenção cardiovascular: Geralmente 1 comprimido de 100 mg por dia, em uso contínuo, conforme prescrição médica.
Não administrar a crianças/adolescentes com infecções virais.
- Tempo até início do efeito
- 20 a 30 minutos (para dor/febre)
- Duração do efeito
- 4 a 6 horas (efeito analgésico); 7 a 10 dias (efeito antiplaquetário)
Contraindicações
Contraindicado em casos de: hipersensibilidade ao AAS ou outros AINEs; tendência a sangramentos (hemofilia); úlceras gástricas ou intestinais ativas; insuficiência grave dos rins, fígado ou coração; durante o último trimestre da gravidez; em combinação com metotrexato em altas doses. Não usar em crianças ou adolescentes para tratamento de catapora ou sintomas gripais pelo risco da Síndrome de Reye.
Superdosagem
A superdosagem de AAS (salicilismo) é uma emergência médica. Os sintomas podem incluir zumbido nos ouvidos, tontura, sudorese, náuseas, vômitos e alterações mentais. Doses muito altas podem levar a coma e morte. Em caso de suspeita de superdosagem, procure atendimento de emergência imediatamente. O tratamento é complexo e realizado em ambiente hospitalar.
Mecanismo de ação
O AAS inibe irreversivelmente as enzimas COX-1 e COX-2. A inibição da COX-1 nas plaquetas impede a formação de tromboxano A2, resultando em seu efeito antiplaquetário que dura toda a vida da plaqueta (7-10 dias). A inibição da COX-2 alivia a dor e a febre.
Efeitos colaterais
Comuns
-
Irritação gastrointestinal
Inclui dor de estômago, náuseas e azia. O risco aumenta com a dose.
-
Aumento do tempo de sangramento
Pode causar maior facilidade de hematomas e sangramento prolongado de pequenos cortes.
Raros / graves
-
Sangramento gastrointestinal grave
Risco de úlceras e hemorragias no estômago ou intestino, que podem ser fatais. O risco é maior em idosos.
-
Síndrome de Reye
Condição grave e potencialmente fatal que afeta o cérebro e o fígado, associada ao uso de AAS em crianças com infecções virais.
-
Reações alérgicas graves
Pode desencadear crises de asma e reações anafiláticas em indivíduos sensíveis.
Interações medicamentosas
| Medicamento / classe | Severidade | Descrição |
|---|---|---|
| Anticoagulantes (ex: varfarina) e outros antiplaquetários (ex: clopidogrel) | Grave | A combinação aumenta significativamente o risco de sangramentos graves. |
| Ibuprofeno | Moderada | Pode aumentar o risco de sangramento gastrointestinal e pode anular o efeito cardioprotetor do AAS em baixas doses. |
| Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRS) | Moderada | Antidepressivos como fluoxetina e sertralina podem aumentar o risco de sangramento quando combinados com AAS. |
Populações especiais
Gestação
D D — evidência de risco em humanos
O AAS deve ser evitado durante a gravidez, especialmente no primeiro e terceiro trimestres. No final da gestação, é contraindicado pois pode causar problemas no feto (fechamento do ducto arterioso) e aumentar o risco de sangramento na mãe e no bebê.
Lactação
O AAS é excretado no leite materno e deve ser usado com cautela. O uso crônico de altas doses deve ser evitado devido ao risco potencial de efeitos adversos no lactente, incluindo distúrbios de coagulação.
Uso pediátrico
O AAS é contraindicado para crianças e adolescentes com febre ou infecções virais (como gripe ou catapora) devido ao risco de desenvolver a Síndrome de Reye, uma condição rara, mas grave e potencialmente fatal, que afeta o cérebro e o fígado.
Uso geriátrico
Idosos apresentam maior risco de efeitos adversos do AAS, principalmente sangramento gastrointestinal e intracraniano. A decisão de usar AAS para prevenção, especialmente a primária, deve ser cuidadosamente avaliada por um médico.
Insuficiência renal / hepática
O uso de AAS é contraindicado em pacientes com insuficiência renal, hepática ou cardíaca grave. Em casos de insuficiência leve a moderada, o uso deve ser feito com cautela e sob supervisão médica.
Regulatório
- Fabricante
- Bayer
- Registro Anvisa
1.7056.0020- Versão genérica
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Perguntas frequentes
Qual a diferença entre AAS e Aspirina?
AAS é a sigla para ácido acetilsalicílico, que é o nome do princípio ativo. Aspirina é o nome comercial de referência do primeiro medicamento a conter AAS, fabricado pela Bayer. Hoje, existem muitas outras marcas e versões genéricas de AAS.
AAS 'afina' o sangue?
Sim, essa é uma forma popular de descrever seu efeito antiplaquetário. O AAS impede que as plaquetas se agreguem para formar coágulos. Ele não 'afina' o sangue no sentido de deixá-lo mais líquido, mas interfere na primeira etapa da coagulação.
Por que não se deve dar AAS para crianças com febre?
Devido ao risco da Síndrome de Reye, uma doença rara, mas grave, que pode ocorrer em crianças e adolescentes que tomam AAS durante uma infecção viral. Essa síndrome causa inflamação no cérebro e acúmulo de gordura no fígado, podendo ser fatal.
Posso tomar ibuprofeno se já tomo AAS para o coração?
É preciso ter muito cuidado. O ibuprofeno pode aumentar o risco de sangramento gastrointestinal e, mais importante, pode interferir com o efeito protetor do AAS no coração. Se precisar de um analgésico, converse com seu médico; o paracetamol é frequentemente uma opção mais segura nesse caso.
O que é o AAS tamponado ou revestido?
São formulações desenvolvidas para reduzir a irritação no estômago. O AAS tamponado contém antiácidos para neutralizar o ácido gástrico. O AAS com revestimento entérico tem uma cobertura que impede a dissolução do comprimido no estômago, fazendo com que ele se dissolva apenas no intestino.
Devo parar de tomar AAS antes de uma cirurgia?
Sim, na maioria dos casos. Como o AAS aumenta o risco de sangramento, os médicos geralmente recomendam suspender seu uso de 5 a 7 dias antes de procedimentos cirúrgicos ou odontológicos. Siga sempre a orientação do seu médico ou cirurgião.
Todo mundo deveria tomar AAS depois dos 50 anos para prevenir infarto?
Não. Essa era uma recomendação antiga. As diretrizes atuais indicam que a decisão deve ser individualizada. Para quem já teve um infarto ou AVC, o benefício é claro. Para prevenção primária, o médico precisa pesar o benefício de prevenir um primeiro evento contra o risco de sangramento de cada paciente.