O maleato de dexclorfeniramina, popularmente conhecido no Brasil pelo nome comercial Polaramine, é um dos mais tradicionais medicamentos antialérgicos disponíveis. Pertencente à primeira geração de anti-histamínicos, ele é eficaz no alívio de sintomas de diversas condições alérgicas, como rinite, urticária e picadas de inseto. Seu principal traço distintivo, e também sua maior limitação, é o significativo efeito sedativo, ou seja, a capacidade de causar sonolência. Por essa razão, seu uso requer cautela, especialmente durante atividades que exigem atenção.

O que é a dexclorfeniramina

A dexclorfeniramina é um princípio ativo da classe dos anti-histamínicos H1 de primeira geração. O termo “primeira geração” refere-se aos primeiros antialérgicos desenvolvidos, que são muito eficazes, mas têm a característica de atravessar a barreira hematoencefálica, a estrutura que protege o cérebro. Ao chegar ao sistema nervoso central, eles interagem com receptores de histamina e outros neurotransmissores, como a acetilcolina, o que resulta em efeitos colaterais como sonolência, tontura e boca seca. A dexclorfeniramina é o isômero dextrógiro da clorfeniramina, o que significa que é uma forma quimicamente purificada que se acredita ter uma atividade antialérgica mais potente com menos efeitos colaterais que a mistura racêmica (clorfeniramina), embora a sedação ainda seja proeminente.

Para que serve

A dexclorfeniramina é indicada para o alívio sintomático de uma ampla gama de manifestações alérgicas. De acordo com a bula aprovada pela Anvisa, suas principais indicações incluem:

  • Alergias respiratórias: Como rinite alérgica (sazonal e perene) e febre do feno, aliviando espirros, coriza e coceira nasal.
  • Alergias de pele: Tratamento de urticária, dermatite atópica, dermatite de contato e eczema alérgico, ajudando a controlar a coceira e a vermelhidão.
  • Outras condições alérgicas: Alívio do prurido em casos de picadas de insetos e reações leves a medicamentos ou alimentos. Também pode ser usada como adjuvante em reações anafiláticas mais graves, após o tratamento de emergência com epinefrina.

Devido ao seu efeito sedativo, às vezes é utilizada para aliviar a coceira intensa que atrapalha o sono, como em casos de catapora (varicela).

Como funciona no organismo

O mecanismo de ação da dexclorfeniramina é o bloqueio competitivo dos receptores de histamina do tipo 1 (H1). Em uma reação alérgica, o corpo libera histamina, que se liga a esses receptores e causa os sintomas conhecidos: inchaço, vermelhidão, coceira e produção de muco. A dexclorfeniramina ocupa esses receptores, impedindo a ação da histamina e, assim, aliviando os sintomas.

Além de sua ação anti-histamínica, a dexclorfeniramina também possui uma atividade anticolinérgica. Isso significa que ela bloqueia a ação da acetilcolina, um neurotransmissor. Esse efeito contribui para a redução da coriza (efeito “secativo”), mas também é responsável por efeitos colaterais como boca seca, visão turva e dificuldade para urinar. A capacidade de cruzar a barreira hematoencefálica e atuar no cérebro é o que causa a sonolência e a sedação, características marcantes dos anti-histamínicos de primeira geração.

Como tomar

A posologia da dexclorfeniramina deve ser sempre individualizada e determinada por um médico. As doses variam conforme a idade e a apresentação do medicamento (comprimido, drágea, solução oral ou creme). As orientações gerais são:

  • Adultos e crianças acima de 12 anos: A dose usual é de 2 mg (1 comprimido ou 5 mL da solução) a cada 4 a 6 horas. A dose máxima diária não deve exceder 12 mg.
  • Crianças de 6 a 11 anos: 1 mg (2,5 mL da solução) a cada 4 a 6 horas, não excedendo 6 mg por dia.
  • Crianças de 2 a 5 anos: 0,5 mg (1,25 mL da solução) a cada 4 a 6 horas, não excedendo 3 mg por dia.

O creme dermatológico é aplicado sobre a área afetada 2 vezes ao dia. Devido à sonolência, muitos pacientes preferem tomar uma dose antes de dormir. É crucial não operar máquinas pesadas nem dirigir veículos após tomar o medicamento. O início do efeito ocorre entre 30 a 60 minutos após a administração oral.

Efeitos colaterais e cuidados

O perfil de efeitos colaterais da dexclorfeniramina é dominado por sua ação no sistema nervoso central. O efeito adverso mais comum e significativo é a sonolência.

  • Muito comuns (ocorrem em mais de 10% dos pacientes): Sonolência, sedação e tontura.
  • Comuns (ocorrem entre 1% e 10% dos pacientes): Boca seca, garganta e nariz secos, dor de cabeça, dificuldade para urinar, visão turva, fraqueza e falta de coordenação motora.
  • Raros (ocorrem em menos de 0,1% dos pacientes): Reações de hipersensibilidade, palpitações, queda de pressão, e em crianças ou idosos, pode ocorrer um efeito paradoxal de excitação (nervosismo, insônia, agitação).

Pacientes idosos são particularmente sensíveis aos efeitos anticolinérgicos e sedativos, com maior risco de quedas, confusão mental e tontura. O uso deve ser muito criterioso nesse grupo.

Quem deve evitar

A dexclorfeniramina é contraindicada em diversas situações:

  • Pacientes com hipersensibilidade ao princípio ativo ou a outros anti-histamínicos de estrutura similar.
  • Bebês prematuros ou recém-nascidos.
  • Mulheres que estão amamentando.
  • Pacientes em tratamento com inibidores da monoaminoxidase (IMAOs), uma classe de antidepressivos.
  • Pacientes com certas condições médicas, como glaucoma de ângulo fechado, úlcera péptica estenosante, obstrução piloroduodenal, hipertrofia prostática sintomática ou obstrução do colo da bexiga.

O uso durante a gravidez é classificado como categoria B, mas deve ser feito apenas sob orientação médica, pesando os riscos e benefícios.

Interações com outros medicamentos

A dexclorfeniramina pode ter interações significativas com outras substâncias, principalmente aquelas que também deprimem o sistema nervoso central:

  • Álcool e outros depressores do SNC (sedativos, hipnóticos, tranquilizantes): A combinação potencializa drasticamente o efeito de sonolência e a diminuição dos reflexos, sendo extremamente perigosa.
  • Inibidores da MAO (IMAOs): Prolongam e intensificam os efeitos anticolinérgicos da dexclorfeniramina, podendo levar a crises hipertensivas. A combinação é contraindicada.
  • Antidepressivos tricíclicos, atropina e outros medicamentos com ação anticolinérgica: O uso concomitante pode somar os efeitos, aumentando o risco de boca seca, retenção urinária e visão turva.

O que fazer em caso de superdose

A superdosagem de dexclorfeniramina pode ser grave, especialmente em crianças. Os sintomas variam de depressão do sistema nervoso central (sedação, apneia, colapso cardiovascular) a estimulação (insônia, alucinações, tremores, convulsões). Outros sinais incluem tontura, zumbido, boca seca, pupilas dilatadas e febre. O tratamento é de emergência e deve ser realizado em ambiente hospitalar. Inclui medidas de suporte à respiração e circulação, e lavagem gástrica ou indução do vômito para remover o medicamento. Em caso de suspeita, procure imediatamente um pronto-socorro.

Quando procurar um médico

É essencial consultar um médico antes de usar dexclorfeniramina, especialmente se for para crianças ou idosos. Procure atendimento médico se:

  • Os sintomas alérgicos não melhorarem ou piorarem com o tratamento.
  • A sonolência for excessiva e incapacitante.
  • Surgirem efeitos colaterais como dificuldade para urinar, visão muito turva ou confusão mental.
  • Ocorrer uma reação de hiperexcitabilidade, como agitação ou insônia, em vez de sono.
  • Você tiver alguma das condições médicas contraindicadas (glaucoma, problemas de próstata, etc.).