O dimenidrinato é um dos medicamentos mais populares e acessíveis para o combate ao enjoo, especialmente aquele causado por viagens de carro, barco ou avião. Conhecido popularmente pelo nome comercial Dramin®, ele faz parte da farmacologia de muitas famílias brasileiras. Sua ação principal deriva de suas propriedades anti-histamínicas, que atuam diretamente nos centros do cérebro responsáveis pelo equilíbrio e pelo reflexo do vômito. Embora muito eficaz para a cinetose (enjoo de movimento), seu uso é marcado por um efeito colateral característico e pronunciado: a sonolência. Entender como ele funciona, suas indicações e precauções é fundamental para um uso seguro e eficaz.

O que é o dimenidrinato

O dimenidrinato é um fármaco que resulta da combinação de duas moléculas: a difenidramina e a 8-cloroteofilina. A difenidramina é a parte ativa responsável pelo efeito antiemético (contra o vômito) e antivertiginoso. Ela é um anti-histamínico de primeira geração, o que significa que atravessa facilmente a barreira hematoencefálica e atua no sistema nervoso central. A 8-cloroteofilina, por sua vez, é um derivado da teofilina com uma leve ação estimulante, adicionada à fórmula originalmente para tentar contrapor o forte efeito sedativo da difenidramina. Na prática, no entanto, o efeito de sonolência ainda é predominante. O dimenidrinato é classificado como um medicamento isento de prescrição (MIP) em muitas de suas apresentações, o que facilita seu acesso, mas não elimina a necessidade de usá-lo com responsabilidade.

Para que serve

A principal e mais bem estabelecida indicação do dimenidrinato é a profilaxia e o tratamento da cinetose. A cinetose, ou enjoo de movimento, é a sensação de náusea, tontura e mal-estar que ocorre quando o cérebro recebe informações conflitantes do sistema vestibular (no ouvido interno, responsável pelo equilíbrio), dos olhos e dos receptores de posição do corpo. Além da cinetose, o dimenidrinato também é indicado para:

  • Náuseas e vômitos em geral: Pode ser usado para aliviar náuseas e vômitos de outras origens, incluindo os do período pós-operatório e os decorrentes de labirintites e outras desordens vestibulares.
  • Vertigem e tontura: É eficaz no controle da vertigem (sensação de que tudo está girando) associada a problemas no sistema vestibular, como na Doença de Ménière.
  • Tratamento da hiperêmese gravídica: Frequentemente combinado com piridoxina (vitamina B6), é uma das opções de primeira linha para tratar as náuseas e vômitos intensos da gravidez, sempre sob orientação médica.

Como funciona no organismo

O mecanismo de ação do dimenidrinato é multifacetado, mas seu principal efeito vem da difenidramina. Como um anti-histamínico H1, ele bloqueia os receptores de histamina em várias partes do cérebro, incluindo o centro do vômito e os núcleos vestibulares, que processam as informações de equilíbrio vindas do ouvido interno. Ao inibir essa via, ele diminui a intensidade dos sinais de conflito que chegam ao cérebro, reduzindo a sensação de tontura e o estímulo para o vômito.

Além da ação anti-histamínica, o dimenidrinato também possui uma forte atividade anticolinérgica. Isso significa que ele bloqueia a ação da acetilcolina, outro neurotransmissor importante nas vias do vômito e do equilíbrio. Essa ação anticolinérgica contribui para o efeito antiemético, mas também é responsável por alguns efeitos colaterais, como boca seca, visão turva e sonolência. A combinação dessas duas ações (anti-histamínica e anticolinérgica) no sistema nervoso central é o que o torna tão eficaz para o enjoo de movimento, mas também o que causa sua marcante sedação.

Como tomar

Para a prevenção do enjoo de movimento, o dimenidrinato deve ser tomado de 30 a 60 minutos antes do início da viagem ou da exposição ao estímulo que causa o enjoo. A dose pode ser repetida a cada 4 a 6 horas, se necessário. A posologia varia conforme a idade e a apresentação do produto (comprimidos, solução oral em gotas, supositório).

Para adultos, a dose oral usual é de 50 a 100 mg. Para crianças, a dose deve ser ajustada pelo peso e idade, conforme orientação médica ou da bula. A apresentação em gotas facilita o ajuste da dose para a população pediátrica. É importante não exceder a dose máxima diária recomendada, pois isso aumenta o risco de efeitos colaterais graves. A versão combinada com piridoxina (vitamina B6) segue posologias semelhantes e é frequentemente preferida para gestantes.

Efeitos colaterais e cuidados

O efeito colateral mais conhecido e impactante do dimenidrinato é a sonolência, que pode ser bastante intensa. Por esse motivo, é extremamente importante que pessoas que tomam este medicamento não dirijam veículos, não operem máquinas pesadas e evitem atividades que exijam atenção e coordenação motora. A combinação com álcool ou outros medicamentos sedativos pode potencializar perigosamente esse efeito.

Outros efeitos colaterais comuns, relacionados à sua ação anticolinérgica, incluem boca seca, visão turva, tontura e dificuldade para urinar. Em crianças e idosos, o medicamento pode, paradoxalmente, causar agitação, nervosismo ou insônia. Idosos também são mais suscetíveis a confusão mental, quedas e outros efeitos adversos. O uso deve ser cauteloso em pacientes com glaucoma de ângulo fechado, aumento da próstata, obstrução intestinal ou urinária, asma e outras condições crônicas.

Quem deve evitar

O dimenidrinato é contraindicado para pessoas com hipersensibilidade (alergia) conhecida ao dimenidrinato, à difenidramina ou a qualquer outro componente da fórmula. Também é contraindicado em pacientes com porfiria, uma doença metabólica rara.

Devido aos seus efeitos anticolinérgicos, deve ser usado com extrema cautela ou evitado por pacientes com as seguintes condições:

  • Glaucoma de ângulo fechado (pode aumentar a pressão dentro do olho).
  • Hiperplasia prostática benigna ou obstrução do colo da bexiga (pode causar retenção urinária).
  • Obstrução piloroduodenal (pode piorar o bloqueio na saída do estômago).
  • Asma brônquica (pode espessar as secreções brônquicas).

O uso em recém-nascidos e bebês prematuros é contraindicado.

Interações com outros medicamentos

A interação mais importante do dimenidrinato é com outros depressores do sistema nervoso central. A combinação com álcool, benzodiazepínicos (calmantes), opioides (analgésicos fortes), antidepressivos tricíclicos e outros anti-histamínicos pode levar a uma sedação profunda, depressão respiratória e comprometimento psicomotor. O uso concomitante com medicamentos que têm atividade anticolinérgica (como alguns antidepressivos e antiparkinsonianos) pode intensificar os efeitos colaterais como boca seca, constipação e retenção urinária. Também pode mascarar os sinais de toxicidade de antibióticos aminoglicosídeos, que podem causar danos ao ouvido.

O que fazer em caso de superdose

A superdosagem de dimenidrinato pode ser grave, especialmente em crianças. Os sintomas incluem sonolência extrema, pupilas dilatadas, rosto avermelhado, febre, boca seca, alucinações, confusão, agitação, convulsões e coma. É uma emergência médica que requer atendimento hospitalar imediato. O tratamento é de suporte, focado em manter as vias aéreas, a respiração e a circulação. A lavagem gástrica e o uso de carvão ativado podem ser úteis se a ingestão for recente. As convulsões podem ser tratadas com benzodiazepínicos.

Quando procurar um médico

Embora o dimenidrinato seja de venda livre em muitas formulações, é aconselhável consultar um médico ou farmacêutico antes de usá-lo, especialmente se for para crianças, idosos, gestantes ou pessoas com condições médicas preexistentes. Procure um médico se o enjoo e os vômitos forem persistentes, acompanhados de dor abdominal intensa, febre alta ou outros sintomas preocupantes, pois podem ser sinal de uma condição mais séria. Se durante o uso do dimenidrinato você apresentar dificuldade para respirar, confusão mental grave, alucinações ou convulsões, procure atendimento de emergência imediatamente.