A mirtazapina é um medicamento antidepressivo com um perfil farmacológico único, que a diferencia de outras classes de antidepressivos como os ISRS e ISRSN. Classificada como um antidepressivo noradrenérgico e serotoninérgico específico (NaSSA), ela é frequentemente prescrita para o tratamento do transtorno depressivo maior, sendo especialmente valorizada em casos onde há sintomas proeminentes de insônia e perda de apetite.

O que é a mirtazapina

A mirtazapina é um fármaco tetracíclico que atua no sistema nervoso central para aliviar os sintomas da depressão. Seu mecanismo de ação complexo envolve o bloqueio de múltiplos receptores no cérebro, resultando em um aumento da neurotransmissão de serotonina e noradrenalina por uma via indireta. Além disso, seu forte bloqueio do receptor de histamina H1 é responsável por seus proeminentes efeitos sedativos e de aumento do apetite.

Disponível em comprimidos convencionais e orodispersíveis (que se dissolvem na boca), a mirtazapina oferece flexibilidade na administração. Por seus efeitos, é geralmente tomada uma vez ao dia, à noite, antes de dormir. O tratamento com mirtazapina deve ser iniciado e supervisionado por um médico.

Para que serve

A principal indicação aprovada para a mirtazapina é o Transtorno Depressivo Maior (TDM). Ela é considerada uma opção de tratamento eficaz para adultos com depressão, com eficácia comparável a outros antidepressivos.

Devido ao seu perfil de efeitos colaterais, a mirtazapina é frequentemente uma escolha estratégica para pacientes com apresentações específicas da depressão:

  • Depressão com Insônia: Seu potente efeito sedativo a torna uma excelente opção para pacientes deprimidos que sofrem de dificuldade para iniciar ou manter o sono.
  • Depressão com Perda de Peso e Apetite: O efeito de aumento do apetite e consequente ganho de peso pode ser terapêutico para pacientes que perderam peso significativo devido à depressão, especialmente idosos.
  • Depressão com Ansiedade: A mirtazapina também possui propriedades ansiolíticas, ajudando a aliviar os sintomas de ansiedade que frequentemente acompanham a depressão.
  • Náusea induzida por outros medicamentos: Seu bloqueio de receptores de serotonina 5-HT3 confere um efeito antiemético, podendo ser útil para pacientes que sofrem de náuseas, inclusive as causadas por quimioterapia ou outros antidepressivos.

Como funciona no organismo

O mecanismo de ação da mirtazapina é multifacetado:

  1. Bloqueio dos autorreceptores α2-adrenérgicos: A mirtazapina bloqueia os receptores alfa-2 pré-sinápticos. Esses receptores normalmente funcionam como um “freio”, inibindo a liberação de noradrenalina e serotonina. Ao bloquear esse freio, a mirtazapina aumenta a liberação desses dois neurotransmissores.
  2. Aumento específico da neurotransmissão serotoninérgica: O aumento da noradrenalina estimula os receptores alfa-1 nos neurônios serotoninérgicos, aumentando ainda mais a liberação de serotonina. Além disso, a mirtazapina bloqueia seletivamente os receptores de serotonina 5-HT2 e 5-HT3.
  3. Bloqueio dos receptores 5-HT2 e 5-HT3: O bloqueio desses receptores é importante. A estimulação dos receptores 5-HT2 está associada a ansiedade, insônia e disfunção sexual, efeitos colaterais comuns de outros antidepressivos. Ao bloqueá-los, a mirtazapina pode evitar esses problemas. O bloqueio do 5-HT3 ajuda a prevenir náuseas.
  4. Bloqueio potente do receptor de histamina H1: Este é o mecanismo por trás dos efeitos sedativos, do aumento do apetite e do ganho de peso. O bloqueio do H1 no cérebro causa sonolência e interfere nos sinais de saciedade.

Curiosamente, o efeito sedativo da mirtazapina é mais pronunciado em doses mais baixas (7,5 mg a 15 mg). Em doses mais altas (30 mg a 45 mg), o aumento da atividade da noradrenalina pode contrapor parcialmente o efeito sedativo, tornando o paciente mais alerta.

Como tomar

A mirtazapina é geralmente administrada uma vez ao dia, de preferência à noite, antes de deitar, devido aos seus efeitos sedativos. Pode ser tomada com ou sem alimentos.

A dose inicial recomendada é de 15 mg por dia. O médico pode ajustar a dose com base na resposta e tolerabilidade do paciente. A faixa de dose eficaz geralmente fica entre 15 mg e 45 mg por dia. Os aumentos de dose devem ser feitos em intervalos de pelo menos uma a duas semanas.

Para os comprimidos orodispersíveis, a embalagem deve ser aberta com as mãos secas, e o comprimido colocado sobre a língua, onde se desintegrará rapidamente. Pode ser engolido com ou sem água.

Assim como outros antidepressivos, a interrupção do tratamento deve ser feita de forma gradual e sob supervisão médica para evitar sintomas de descontinuação, como náusea, tontura e ansiedade.

Efeitos colaterais e cuidados

Os efeitos colaterais mais proeminentes da mirtazapina estão diretamente ligados ao seu mecanismo de ação:

  • Sonolência e sedação: Muito comuns, especialmente nas primeiras semanas e em doses mais baixas. Os pacientes devem ser alertados sobre o risco de operar máquinas ou dirigir.
  • Aumento do apetite e ganho de peso: Efeito muito comum e frequentemente significativo. Pode ser um benefício para alguns pacientes, mas um problema para outros.
  • Boca seca
  • Tontura
  • Aumento dos níveis de colesterol e triglicerídeos

Um efeito colateral raro, mas grave, é a agranulocitose, uma queda acentuada nos glóbulos brancos que combatem infecções. Embora o risco seja muito baixo, pacientes que desenvolvem febre, dor de garganta ou outros sinais de infecção durante o tratamento devem procurar um médico para realizar um hemograma.

Quem deve evitar

A mirtazapina é contraindicada para pacientes com hipersensibilidade ao princípio ativo. Também é contraindicado o uso concomitante com inibidores da monoaminoxidase (IMAOs) ou dentro de 14 dias após a interrupção de um IMAO, devido ao risco de síndrome serotoninérgica.

Deve ser usada com cautela em pacientes com problemas hepáticos ou renais, epilepsia, doenças cardíacas, pressão baixa e glaucoma de ângulo fechado.

Interações com outros medicamentos

A mirtazapina pode interagir com várias substâncias, potencializando ou diminuindo seus efeitos:

  • Depressores do sistema nervoso central (álcool, benzodiazepínicos, opioides): A mirtazapina pode potencializar o efeito sedativo dessas substâncias, aumentando o risco de sonolência excessiva e depressão respiratória. O consumo de álcool deve ser evitado.
  • IMAOs: Combinação contraindicada.
  • Medicamentos serotoninérgicos (ISRS, ISRSN, triptanos): Embora o risco seja menor do que com outros antidepressivos, a combinação pode, em teoria, levar à síndrome serotoninérgica.
  • Indutores e inibidores da CYP3A4: Medicamentos como carbamazepina e fenitoína (indutores) podem diminuir os níveis de mirtazapina, reduzindo sua eficácia. Cetoconazol e outros inibidores podem aumentar seus níveis, elevando o risco de efeitos colaterais.

O que fazer em caso de superdose

A mirtazapina é considerada relativamente segura em caso de superdosagem quando tomada isoladamente, em comparação com antidepressivos mais antigos. Os sintomas de superdose geralmente incluem desorientação, sonolência profunda, taquicardia e amnésia. No entanto, o risco aumenta significativamente se for combinada com outras drogas, especialmente depressores do SNC. Em caso de suspeita de superdose, o atendimento médico de emergência deve ser procurado imediatamente.

Quando procurar um médico

É importante manter o acompanhamento médico durante o tratamento. Procure um médico se você apresentar:

  • Sinais de infecção, como febre, calafrios ou dor de garganta (para descartar agranulocitose).
  • Piora da depressão ou surgimento de pensamentos suicidas.
  • Icterícia (pele e olhos amarelados), que pode indicar problemas no fígado.
  • Convulsões.
  • Reações alérgicas graves.
  • Sonolência excessiva que interfere significativamente nas atividades diárias.