Uma nova pesquisa indica que a combinação de semaglutida e álcool pode ter um efeito inesperado e positivo. O medicamento, popularmente conhecido por seus nomes comerciais Ozempic e Wegovy, demonstrou reduzir o consumo excessivo de bebidas alcoólicas em pessoas com obesidade, segundo um estudo publicado no periódico científico Journal of Hepatology.
Detalhes do novo estudo
A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, foi um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo. O estudo envolveu 21 participantes, homens e mulheres, diagnosticados com obesidade e que apresentavam um padrão de consumo de álcool considerado de risco.
Durante 12 semanas, metade dos voluntários recebeu injeções semanais de semaglutida, enquanto a outra metade recebeu um placebo. Os resultados mostraram que o grupo tratado com o medicamento reduziu significativamente a ingestão de álcool em comparação com o grupo de controle. A redução foi observada tanto na frequência quanto na quantidade de álcool consumido.
Como o medicamento GLP-1 age no cérebro
A semaglutida é um medicamento da classe dos agonistas do receptor de GLP-1. Sua função principal é imitar um hormônio intestinal que regula o apetite e os níveis de açúcar no sangue, sendo eficaz no tratamento de diabetes tipo 2 e da obesidade.
Os pesquisadores acreditam que o mecanismo que reduz o apetite por comida também atua no sistema de recompensa do cérebro. Ao diminuir a sensação de prazer e a “recompensa” associada ao consumo de álcool, a semaglutida pode ajudar a reduzir o desejo pela bebida. Essa ação dupla sobre a relação entre obesidade e álcool é um campo promissor de investigação.
Implicações para o tratamento de semaglutida e alcoolismo
Embora os resultados sejam animadores, os autores do estudo ressaltam que a pesquisa é preliminar e foi realizada com um número pequeno de participantes. O uso da semaglutida para tratar o alcoolismo ainda é considerado “off-label”, ou seja, fora das indicações aprovadas em bula.
A descoberta, no entanto, abre caminho para novos estudos com medicamentos da mesma classe. Outros agonistas de GLP-1, como a tirzepatida, recentemente aprovada pela Anvisa no Brasil, também podem ter efeitos semelhantes e se tornar ferramentas no tratamento de dependências.
Para que a semaglutida ou medicamentos similares sejam oficialmente indicados para o tratamento do transtorno por uso de álcool, são necessários ensaios clínicos maiores e mais longos. Qualquer nova indicação terapêutica exige uma avaliação rigorosa por parte de agências reguladoras, que já monitoram de perto os efeitos de emagrecedores no mercado.
Portanto, os achados atuais servem como um ponto de partida para futuras investigações. Os especialistas alertam que pacientes não devem usar o medicamento para este fim sem orientação e acompanhamento médico rigoroso, devido aos potenciais efeitos colaterais e à necessidade de supervisão profissional.